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30.1.04

Hoje

Afogo o meu corpo no afago das tuas palavras.


Edvard Munch

28.1.04

Grafismo I

É no silêncio da minha fala
Que te insinuas.
É na conversa do meu corpo
Que te declaras.
É na pressa dos meus dedos
Que te atravessas.
É na brancura da minha pela
Que me inventas.
É na nudez da minha alma
Que me disputas.

O recontro na raiz do descenso.



George Grosz


Grafismo II

I
Se me calo, ouço-te a voz.
Se te escuto, invento-te a fala.
Se me foges, persigo-te os passos.
Se me caças, liberto-te do silêncio.

II
Porque ninguém me preveniu
Que esta sina afadigaria
Porque ninguém me advertiu
Que só o ardor a evidência.

III
Não quero esta prisão
Que me liberta e executa
Não quero nada inventar
Que impeça o meu realizar.

IV
Que vos dizer do contraditório gemido
Desta fala de angústia e de vontade
A não ser que me queda a boca seca
No desassossego em mim hospedado.

É a blogosfera uma aparente realidade ou uma virtual aparência daquilo que somos?

Realidade e virtual, duas coisas distintas?
Ou duas faces distintas de uma mesma coisa?
Ou só duas palavras no lugar de uma?...

In ouro sobre azul

E agora realidade?
...A virtualidade sentimental é um poço vazio...
...é tão fácil enganar o outro com o nosso próprio engano...

in escrita ibérica


27.1.04

Porque se escreve

“Escrever é defender a solidão em que se está; é uma acção que brota somente de um isolamento afectivo, mas de um isolamento comunicável, em que, exactamente, pela distância de todas as coisas concretas, se torna possível um descobrimento de relações entre elas.
Mas é uma solidão que necessita de ser defendida, que é o mesmo que necessitar de justificação. O escritor defende a sua solidão, mostrando o que nela e unicamente nela, encontra.
Se há um falar, porquê o escrever?
Mas o imediato, o que brota da nossa espontaneidade, é algo pelo qual inteiramente não nos fazemos responsáveis, porque não brota da totalidade íntegra da nossa pessoa; é uma reacção sempre urgente, premente. Falamos porque algo nos compele e a ordem que nos é dada vem de fora, de uma armadilha em que as circunstâncias pretendem caçar-nos, e a palavra livra-nos dela. Pela palavra tornamo-nos livres, livres do momento, da circunstância assediante e instantânea. Mas a palavra não nos recolhe, nem, portanto, nos cria e, pelo contrário, o muito uso que dela fazemos produz sempre uma desagregação; vencemos pela palavra o momento e depois somos vencidos por ele, pela sucessão dos momentos que vão levando consigo o nosso ataque sem nos deixar responder. É uma contínua vitória que, por fim, se converte em derrota.
E dessa derrota, derrota íntima, humana, não de um homem particular, mas do ser humano, nasce a exigência de escrever.
Escreve-se para reconquistar a derrota sofrida sempre que falámos longamente.”


María Zambrano (1904-1991)
A Metáfora do Coração (e outros escritos)
(Tradução José Bento)

26.1.04

O menino


Christian Cravo

os joelhos espalmados na calçada
arrastam o pesado fardo da penúria
e nos olhos marejados da tua raça
mostras os remendos da injúria

as mãos caiadas de esperança
esticam-se à mercê de quem passa
e em cada tilintar que mata a memória
dobras-te com a tristeza da vida lassa

deslembras o que é ser menino
na sujidade infame do escorraçar
um sonho desgrenhado pelo infortúnio
o desprezo nosso ao cigano a mendigar


22.1.04

A rendição


Lynn Hershman

Agarras-me aos punhados
Mãos cheias do meu sonho imerso
Tomas tudo o que tenho em mim
Invadindo sulco a sulco o meu avesso.

Agarras-me aos punhados
O corpo naufragado perde a sua raiz
E nos dedos que rasgam a pele húmida
Colhes os líquidos segredos de mis.



21.1.04

A noite


Emil Nolde

Perco-me no encontro da tua noite
Com a cegueira da ausência sentida
E nesse teu cheiro que me afaga o corpo
Afogo a vontade no acerto da vida.

Esta febre não tem freio nem escapatória
A tormenta de um fogo que não dá descanso
E no rasto de mais uma madrugada da memória
As mãos misturadas com o rosto do desejo manso.


18.1.04

Melodia do silêncio


Donald Baechler


Se eu vos pudesse contar
Tudo o que não me atrevo a falar
Mas não devo dizer o que quero
E afogo-me no que tenho que calar

É nesta melodia do silêncio
Que sem eu querer me entristece
Escuto o soluçado ruído das coisas
E sinto que qualquer coisa apodrece

Atravessa-me o vestido de pele
Estas cansadas palavras nuas
Lembram de mim sem eu querer
As marcas cravadas como puas

Não corre apressado este tempo
Mas isso que me importa
Sem mais para vos dizer ou falar
Encosto-me no abrigo desta porta.


15.1.04

Gosto de Gostar


Karl Schmidt-Rottluff

Abrem-se os lábios ansiosos
E os braços abertos apertam o ar
Nesta espera de um tempo novo
Sem o meu gosto se revelar

Na carne das minhas palavras
Há a demora de um sinal ardente
Palpita o sangue da minha memória
e nada me desperta genuinamente

Tem dois mandos este meu corpo
Um ordena o passo embaraçado
O outro, que ande para a frente
Com o gosto do coração escaldado

Com nenhuma voz me contento
E no intimo alvoroço nada amolece
Nesta mágoa de desejar em vão
O domínio de todo o amor me apetece

Peço hoje, para este meu corpo
Os ímpetos do amor , os impulsos do desejo
Que me chegue outra vontade, outro sabor
Ser toda, ser inteira, este é o meu ensejo.

14.1.04

Hoje
Não fales. Acontece. Dentro de mim.


Sem título


Beatrice Helg

As palavras de amor
Na febre desatada dos teus dedos
Ganham a dimensão da escrita
No papel que é a minha pele

Entranças o desejo
Nas linhas feitas de saliva
E na exactidão de um ponto
O incêndio de uma suplica minha

Ensinas-me os passos seguintes
Verso a verso daquilo que sou
E no epílogo das frases finais
Rasgas-me a poesia da tentação



13.1.04

Exactamente nua


Andrey Smirnov

Carrego o ardor do deserto na boca
na vida que preenche a realidade que invento

Arrasto a sede do corpo curvo e apertado
no passo demorado da imaginação que se alonga

No perfil dos lábios o ardor das palavras
Desafia os atrasos da passagem do tempo

Espreguiço-me de tão pouca vontade
Na vontade de poder voltar atrás sempre que quero

12.1.04

#26
Aquilo que pensamos devora-nos enquanto esperamos.


Pedro Palma

Viajante

caminhos
atalhos
reentrâncias
vagueio pelo teu corpo
vontade muda e incoerente

caminhos
atalhos
reentrâncias
sorvo-te o hálito e a temperatura
que queima a chama quente

caminhos
atalhos
reentrâncias
na eternidade do espaço sem fim
a chuva, atrevida, se desprende

9.1.04

Tapa-me

Se te penso
Há qualquer coisa que me empurra

Se desatas o abraço
Verás que não posso abandonar-te

Vem, vem depressa
Acerca-me o beijo da saudade

Antes que amanheça
No tempo exacto de ser tua

Apressa-te
Tenho a vontade nua


Hoje



Vamos brincar ao faz-de-conta, que poderia ser o jogo que nos acompanha a vida toda.


8.1.04

#25
É impossível saber até onde irá connosco a nossa confiança.

Jogo de nuvens cinzentas
Ai, meu país que o teu tecido não é transparente e limpo. É feito de interesses, de cobiça, de mentiras, de ciúme, de injustiças e de muita solidão. Não parece ter sido alguma vez de outra forma e duvido que alguma vez venha a ser diferente no essencial, mas aproximamo-nos a passos largos de um momento de ruptura. O país talvez possa remediar-se politicamente, mas a aprendizagem e decisão morais terão que ser reinventadas por cada homem como se se tratasse do primeiro dia da história.
Elias Canneti sublinhou que, na relação entre o poder e a sobrevivência, o mais poderoso alimenta-se da destruição dos outros, aspirando a que ninguém permaneça de pé, vivo e diferente, à sua frente. Para além das diferenças políticas está essencialmente a dignidade de uma Pátria, e esta somos nós, os boquiabertos, os informados. É gravíssimo este envenenamento em massa e a nós só nos resta esperar e assistir à gratuitidade minuciosamente enganadora do que aconteceu que sempre se deu mal com a teoria que explica o que verdadeiramente acontece. Pois eu, o que é que os senhores querem, continuo sem perceber realmente qual é o verdadeiro e único objectivo desta fantochada toda, neste evidente desacreditar do processo, da justiça e de um partido.
Ai, meu país, andam à solta os cães enraivecidos e, uns mais do que outros, todos ladram miseravelmente contentes com tão sinistra matilha.
“Cada um de nós espera que esta pátria (propositadamente em minúscula) cumpra o seu dever”, pelo menos, eu ainda o espero, independente do franzir do sobrolho e dos punhos cerrados de indignação.

Seguramente e dentro de pontuais minutos assistiremos a mais um episódio de má qualidade desta triste telenovela.

7.1.04

Para ti, A.

Para que o dia de amanhã fique para sempre perdido na memória.


Benny Andrews

Um momento
Fotografamos a vida com medo de perder a memória, guardamos as imagens que não tivemos tempo de admirar, lançamo-nos sobre postais que nos permitem levar para casa monumentos ou maravilhas a que praticamente viramos as costas quando as tínhamos perante nós. Preocupamo-nos demasiado com as coisas que não farão parte das nossas recordações e as verdadeiras memórias, aquelas que nos possuem, não as podemos exibir. Somos uma raça estranha, não acham?

Fausto pediu a Mefistófeles um momento que fosse tão belo que merecesse o grito de “Pára!”. E assim, assassinou Margarida.

6.1.04

Devaneio
O impossível só existe se nós o inventarmos.
Vamos acreditar hoje, aqui, que tudo é possível, que tudo será possível.
O melhor, aqui e sempre, é o mais agradável e cada um de nós é muitos.


desfolhada


Ruven Afanador

em ti
eu estou

de mim
me esqueço

de ti
eu sou

dentro de mim
me aqueço

no desejo de ti
regresso a mim

5.1.04

Ou vice-versa


Terry Allen

Despertas-me o corpo
O desejo nos dedos

Desfazes-me o disfarce
O prazer na pele

Desapertas-me a vontade
O sabor na saliva

Desabotoas-me a pele
O suor nos seios

Descobres-me o desejo
A vontade no ventre

Dás-me o tempo
A urgência nas unhas

Deitas-me no delírio
O grito na garganta

Ah, mas defendo-me e desfiro sem trégua.

3.1.04

Silêncios ao vento



Aos que nada procuram
Porque já procuraram muito

Aos que nada encontram
Porque perdem os caminhos que vão dar a casa

Aos que nada vêem
Porque trocam os sítios e encobrem os sinais

Aos que nada seguem
porque os pulsos não encaminham as mãos

Aos que nada esquecem
Porque carregam no peito a ponta de um arpão

Aos que nada auxiliam
porque o tempo confunde qualquer abraço

Aos que nada desejam
Porque navegam no silêncio do corpo

Aos que nada beijam
Porque a sede se disfarça sobre a pele

Aos que nada possuem
Porque desfiam o limite para além do limite

A todos nós
Para que não tropecemos na paz adormecida
Destruindo todas as pistas que nos salvam
Encontros, desencontros, não importa
Porque para amar é tão curta esta nossa vida.

QUE ESTE NOVO ANO SEJA O ANO DA CONCRETIZAÇÃO DOS SONHOS

Sem preconceitos
Sem fome
Sem sombras sentadas no peito

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