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31.10.03

Barbie
Hoje vi-a sem vestido,
Era a Barbie, a boneca anoréxica. Baahh...
(Coyote)

#5
Até a simples queda é uma possibilidade de transporte. Em alguns casos, suponho, até aceitável.

Uma rota
Apetecia-me forjar um diálogo platónico em que as supostas personagens não fossem mais do que corpos salpicados de beijos. E nada seria como dantes, uma viagem exótica começaria e tudo poderia acontecer. A minha rota. Uma rota suspeita. Talvez o fim de uma aventura.

(Paula)

Estado de Alma
Olho o céu negro,
Não há estrelas nem luar,
A terra gira e os ponteiros do relógio não param,
O bebé chora no ventre da mãe,
As crianças não sorriem,
Bêbados e prostitutas segredam suas aventuras,
Polícias e ladrões brincam de toca e foge,
As sirenes loucas correm,
Os amantes fundem-se,
Poetas gritam em silêncio,
O som do meu motor abafa gemidos e sentidos de dor,
Estou só.
O uivo do coyote chama por mim.

30.10.03

E
este deslizar não é mais nem menos que o meu vício infantil de sonhar à noite.

Sensações
Continuo a acreditar que nunca teremos certezas, que ficamos sempre com a dúvida se o arrebatamento íntimo, o encantamento do êxtase amoroso é tão pleno como parece e se não será, muitas vezes, induzido pelas circunstâncias. Mas o pior de tudo, a meu ver, são os sinais que ficam a pairar no ar daquele que desfruta o encontro, independentemente da intensidade ou tipo de relacionamento. Quem desfruta, por muito reflexivo que seja, dará sempre a impressão de estar a representar um pouco. Recebidas ou transmitidas, estas sensações entristecem-me sempre.

29.10.03

Vaivéns da Solidão
As palavras de cristal descansam ao abandono, pois sou um pobre encaixador de solidão, dizias, e os olhos enlutaram-se com a cor do anoitecer.
Não há dúvida que a solidão é um veneno e como qualquer outro alucinogénio tem a capacidade de alterar a nossa relação com o tempo e no tempo. A eternidade despovoada amplia-se inconsolavelmente a cada segundo e consumida detém o decorrer das horas. Leva-nos a conhecer o infinito sem suavizar o doloroso sentir dos condenados. E nestes vaivéns de solidão não fica nada, excepto nós e o tempo, face a face. E a vida, como um filme, passa perante os nossos olhos e apodera-se de nós, de acordo com subtis simpatias ou antipatias e com um humor que nenhuma influência exterior fará mudar. As imagens são a causa secreta de todos os males, ou, pouco a pouco, uma radiosa promessa de libertação. É nestes vaivéns de solidão que amamos ou odiamos sem reservas.
Mas, permite que te recorde, pior do que chegar à conclusão de que a solidão é realmente intolerável é tomar consciência que a companhia é insuportável. Não se tapa um buraco com um buraco maior, digo-te eu, porque sei.

As letras

a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v x y z , . : ; ~ ^ ´ ` ! ?

Em composição.

28.10.03

Beleza
A percentagem de beleza que existe numa obra de arte é directamente proporcional ao estado individual da consciência de cada um.
Dependendo desse estado de consciência assim a imagem que é projectada terá várias formas e movimentos.
Alguns transmitindo estados de relax e prazer outros ansiedade e agitação.
A beleza aparente não é reveladora em caso algum da beleza oculta, bem pelo contrário.
O bem estar de cada um perante a beleza está na proporção da paixão que é transmitida pela projecção, pelo toque, pelo sentimento e pelo Amor.
Tudo isto fazendo parte das nossas vidas.

#4
Em quase tudo palpita a voz do preconceito. Mas acabar com os preconceitos não será também um moderno preconceito?

Os outros
A opinião pública, que neste caso concreto se resume a um grupo de amigos e alguns conhecidos, imagina os autores dos blogues como personagens voluntariamente encerrados no seu mundo privado, sumamente abstracto, tipos que não se metem em nada, ou como personagens de (eventual) sobrenome que são intrometidos, opinam sobre tudo, sendo ou não especialistas na matéria, em resumo, metediços.
Têm alguma razão, não têm?

27.10.03

Viagem à luz do luar
Vamos nadar até à lua,
vamos içados na maré,
penetremos na noite em que a cidade para ocultar-se dorme.
Esta noite vamos nadar, meu amor, é o momento de chorarmos,
estacionados junto ao mar, após a viagem à luz do luar.

Vamos nadar até a lua,
vamos içados na maré,
entreguemo-nos aos mundos que, enquanto esperam, nos lambem os corpos.
Não temos saída nem tempo para optar,
caminhamos rio adentro na nossa viagem à luz do luar.
Vamos nadar até à lua,
vamos içados na maré.
A tua mão agarra-me, mas eu não posso ser teu guia,
fácil é amar-te ao ver-te deslizar,
escorregar por entre húmidas florestas,
durante a nossa viagem à luz do luar.

James Douglas Morrison

On/Off
On
Quando nascemos penduram-nos de cabeça para baixo,
É um V sem volta,
É o principio dum fim,
Somos empurrados para o abismo,
Enfrentamos a vida no fio da navalha,
Na procura insistente de qualquer coisa que já nos encontrou.
Off

Dúvida
Será mais fácil morrer de amor ou viver plenamente o amor?
Será mais fácil dar a vida pelo outro ou suportar a vida do outro e até colaborar com ela?

#3
Que não se incomodem a pagar o nosso preço não quer dizer que não estejamos à venda.

Justiça
É preciso ter muito cuidado com a utilização da palavra justiça. Muitas das vezes, simplesmente serve para justificar uma ânsia incontrolada pelo poder ou até mesmo a vontade de se aproveitar sem escrúpulos do próximo, e desculpem-me, mas creio que, no seu ponto extremo, até o puro impulso criminoso.


26.10.03

O meu barco
A 26 de Junho do corrente ano, nascia sob o signo de caranguejo, o blogue deslizar no sonho. Quatro meses passados o balanço é animado, mas de uma estabilidade mais ou menos aceitável. As visitas de hoje podem rever estas palavras como uma crónica matizada de um testemunho, o meu testemunho, muitas vezes ingénuo mas nunca desinteressado e, espero, nada obtuso. Do conjunto de palavras tenho um especial carinho por aquelas que contribuíram para me deparar com alguns bons encontros da minha vida. Face a isto, continuarei a navegar, talvez, inspirada no elemento e na regência do signo deste blogue, a água e a lua, respectivamente.


#2
E que tal, sermos chamados pelo que somos e não só apesar do que somos?

25.10.03

Estava distraída
E hoje, sábado, as palavras, mais do que em outro momento, deslizam, empeçam-se e surpreendem-me. Fico na dúvida se agradeço às palavras, às minhas que, extasiada descubro, revelam mais do que supunha, às suas, elogiosas, que em forma de pedido urgente as quer conhecer.
Estava distraída. Distraio-me sempre quando deambulo pelo meu pequeno mundo, pelas minhas coisas, coisas que também gosto que sejam minhas, mesmos minhas, o que aqui não faz muito sentido, ou fará todo o sentido (?), porque sendo minhas, mesmo minhas, são de todos aqueles que as querem ler.
Estava distraída. Mas já me recompus.

#1
Estar de fora nem sempre é sinónimo de não querer ou não ter querido entrar.

Coágulo
Por norma, todos os conflitos, sejam eles de ideias, interesses ou até mesmo de paixões, encerram um sólido coágulo que pede, aos gritos, a eliminação pura e simples do suposto adversário.
Não nos limitamos a discutir um problema como problema que o é em determinado momento. Com uma facilidade dos diabos questionamos todo o processo e inclusive, rivalizamos de imediato com quem está perante de nós.

23.10.03

Asas de Pano - o sonho dele contado por ela
Estranhamente dou por mim a sonhar dentro do meu próprio sonho, porque te vejo a caminhar em minha direcção, envolta num sobretudo de veludo púrpura. Os canudos do tecido enrolam-se nas tuas pernas para depois as libertar um centímetro mais, enquanto a chuva te acompanha e segue de mansinho os teus passos certos e cruzados. Fecho os olhos, decidido a sair do sonho do meu sonho. Chamo por outras imagens, imagens de outras mulheres, de mulheres que encontrei perdidas, mas és tu que tenho colada à minha pele.
Lembro-me da escuridão protegida daquele quarto pincelado de decadência no alto de uma estreita e contorcida escadaria para onde carregaste o meu corpo molhado de paixão. A debotada cortina amarela que mal vestia a pequena janela, movia os rasgos à cadência da brisa nocturna e convidava os sons do beco fedorento que se alojaram em permanente companhia. No silêncio de um caminhar de baratas, os estalos do soalho pareciam súplicas da velha madeira cansada, pedia que as suas entranhas se transformassem em tábuas de caixão. Do quarto ao lado, os gemidos de uma mulher atravessavam as paredes de papel e imaginou-a, meio vestida meio despida, na louca subjugação do abandono total. A mulher ganhou os contornos do teu corpo e era a tua boca que eu sentia.
Sentou-se na cama e fitou a porta, sentindo a excitação dos passos que se aproximavam. Mas, naquela noite, ela não o procurou e ele perdeu-se na ilusão de uma história que de história só teve o seu início.
Assusto-me. Nos sonhos, todos os medos têm uma forma. É a figura da solidão com os olhos raiados a vermelho que me pergunta: Porque é que a deixas-te passar? Com aquelas calças largas parecia um elefante. Tem as orelhas grandes e um ar cansado. A solidão é um elefante cansado.
Enfio as mãos nos bolsos das calças e baixo os olhos em direcção ao sapatos ensopados pela água que corre em abundância, a figura de um menino que foi apanhado em falta. As pessoas não têm que se amar umas às outras, diz baixinho. A solidão deu uma estrondosa gargalhada.
Encontro-me num estado de confusão mental, quero dizer, não sei se percebem, como quando tudo corre mal. Estou em estado de choque, mais ou menos, como quem está sentado na paragem do autocarro à espera que a morte chegue. Bem, eu não estava sentado, e também não era a morte, mas só podia ser similar. Fiz de conta que não era nada comigo, mas o cheiro da solidão entrava-me pelas narinas, um bafo de bebidas acumuladas. O que é que ela queria? No fim de contas, seria necessário uma pessoa gostar de um ser humano? O amor entre humanos nunca durava muito. Havia demasiadas diferenças na espécie e o que começava em amor acabava por transformar-se em guerra. Impaciente, agarrou-me pelos ombros e gritou: Porque é que a deixaste passar? Não respondi. Não tinha resposta, e ela sabia.
A solidão olhou-o, sentada no tronco da árvore de flores amarelas. A imagem daquela criatura pendurada num tronco tão fino, desafiava qualquer lei da gravidade.
Porque será que a solidão é um gigante tão pesado? Porque será que normalmente estes gigantes tão pesados são femininos? A solidão, a morte, a doença, a tristeza, a infelicidade, e outros tantos que não quero lembrar porque me assustam.
O movimento do gigante fez dançar o amarelo das flores e ouviu-se o tilintar de pequenas campainhas, o mesmo som dos guizos que caminham dependurados nas coleiras dos gatos. Içou a voz, mas em conversa de si para si, disse:
Pensarás tu que a solidão é só tua? Sou maior do que tu imaginas. Posso acompanhar todos aqueles que conheces e aqueles que desconheces estando ao mesmo tempo aqui, junto a ti. Todos os dias multiplico-me em outros tantos e os meus dias não têm princípio nem fim. Estão sós e cada vez mais têm medo da solidão, mas cada vez mais se isolam como tu.
É tão fácil decidir quais serão as palavras do outro e construir o diálogo que queremos, argumentar de acordo com as circunstâncias e tomar as decisões que são convenientes. Os buracos, os teus buracos, não são buracos para preencher, são todos os buracos que têm que permanecer abertos, são as tuas justificações, são as tuas verdades disfarçadas de diálogos, meros monólogos. E tu, queres que eles existem.
Pensaste, por acaso na solidão dela? Pensaste que bastaria esticar o braço e oferecer os dedos da tua mão?
Sabes, muitas vezes, a importância das palavras está no seu silêncio. Um diálogo silencioso. E os diálogos das palavras silenciosas fazem-se com os olhares, com os toques, com os toques dos olhares. Mas tu baixas os olhos. Sempre. E afogas as palavras que nadam nos teus olhos, mas pior ainda, não escutas as palavras que dançam no olhar do outro. Arruma o teu olhar e corre. Ainda a podes apanhar . Experimenta. Não escancares mais um buraco de um diálogo que não existiu. E as meias palavras são importantes, tão importantes como as palavras de corpo inteiro. É o toque menos importante que o abraço? É a cumplicidade da passagem de um olhar menos importante que um beijo? É um abraço menos importante que a fusão total dos corpos? É a fusão total dos corpos menos importante que o diálogo silencioso? É o diálogo silencioso menos importante que o toque? Não percebes, que as meias palavras podem ser mais importantes que levianas palavras inteiras? Não percebes que nas meias palavras podem estar um mundo de palavras inteiras que só precisam de ajuda para crescer?
Anda, corre! Ainda vais a tempo!

Uns e Outros
Uns nascem outros morrem,
Uns correm outros arrastam-se,
Uns dormem outros acordam,
Uns estão cá outros estão lá,
Uns são felizes outros infelizes,
Uns constróem outros destróem,
Uns seguram outros empurram,
Uns puxam para cima outros para baixo,
Andamos todos suspensos,
Á espera que o mundo se aguente.

22.10.03

Prazer
O sentimento num dos mais puros estados,
Estados de prazer,
Um prazer puro,
O prazer que o prazer dá é...,
Um prazer diferente,
O desejo de prazer que quer prolongado,
Prazer sereno,
Prazer pacífico,
Naqueles momentos...,
O líquido cremoso,
Quente,
Doce,
Delicioso,
Quando acaba,
Fica o sabôr a pouco
Quere-se mais,
Fica aquele sabor de prazer na boca,que se espalha por todo o corpo,
Este prazer que o chocolate me provoca.


Brutal
Habitualmente, tomo a primeira bica da manhã no cafézinho ao lado de minha casa. É um café de bairro no centro da cidade, matinalmente frequentado por uma população mais idosa que se encontra para dois dedos de conversa a caminho do supermercado. Embora variados, os temas são essencialmente sobre as desgraças alheias, da rua e das que se ouvem na televisão. Não sei quem era a pessoa de quem falavam, mas padece de uma doença terminal. E, a determinado momento, a senhora mais idosa da mesa, depois de todas emitirem a sua opinião sobre o assunto, diz calmamente:
- Se Deus o marcou é porque algum defeito lhe encontrou.

Não consigo deixar de pensar nisto.

Cãs
O cabeleireiro é um dos locais onde as desgraças alheias são penteadas ao pormenor, mas ontem, enquanto cortava o cabelo, cabeleireira e cliente filosofavam sobre os cabelos brancos nas têmporas. A cliente, perguntava, porque razão é que os cabelos brancos aparecem sempre à frente. Entre uma tesourada e outra, diz a cabeleireira:
- Porque as preocupações temo-las sempre à nossa frente e são elas que nos fazem cabelos brancos. Já dizem os antigos que devemos mandar as preocupações para trás das costas. E com elas vão os cabelos brancos.

E eu que pensava que as cãs era uma questão hereditária.
A partir de hoje, as preocupações viajarão sempre no banco de trás.

21.10.03

Segredos
A cama fria,
O corpo quente,
O olhar que grita,
Movimentos selvagens de dor e prazer,
Danças sobre o movimento,
Esqueçemos tudo,
Estamos loucos,
Estamos felizes,
Chiuuuuuuu,
Este é o nosso segredo.
Olá como te chamas?

Passos
Caminho na escuridão,
A chuva não pára,
Envolto na neblina,
O frio une-nos,
Os corpos encaixam-se,
Por entre o nevoeiro como manchas que se desvaneçem o néon ficou para trás.

Volto já!
Olhe atentamente para este post até ver alguma coisa.








Não procure mais! É exactamente isso que está a ver.

Ainda no fim de semana, jantar de amigos
O grupo outrora era giro. A casa duns era frequentada por outros, os fins de semana loucos eram nalgum lugar e as férias partilhadas por todos.
Casaram, engravidaram, nasceram filhos, mudaram de casa, apareceram novos amigos e o afastamento aconteceu normalmente.
Raramente nos encontramo, esporádicamente quase por acaso.
Mas este fim de semana decidi aceitar o convite, ir ao jantar de aniversário na zona "in" da margem sul, Meco.
Durante o fim de semana dispo a farda semanal e visto a civil. Todos estavam com a semanal, como sempre eu fora do contexto.
Dei por mim a pensar nos meus novos amigos. Eu não pertenço aqui.
Eles sãoo estranhos.
Onde está aquela graça doutros tempos, da beleza, das loucuras.
Fala-se de carros, negócios ,extenções e coloração, das creches e das dietas (atenção á  roupa justa e curta) e da vida dos colunáveis como se intimos fossem.
Acordo, sacudo-me e penso. Devo estar na mesa errada.
Não pertenço aqui, estes não são os meus amigos concerteza. Onde estão os meus amigos?
Ainda tento o diálogo mas sai-me um monólogo.
Prefiro os meus novos amigos.
- Por favor onde fica a casa de banho?
- Fundo á direita
- VOLTO JÁ... VOU CAGAR

20.10.03

Perde-te nas palavras e deixa-te ir
A imagem, que por um rápido momento nos é desconhecida, mas que depois nos fita e fica emboscada no outro lado do espelho.
A partir de hoje, Deslizar no Sonho é um Blogue Partilhado.
Obrigada por estares aqui. Gosto muito.

Bom dia para todos
Já tem acontecido não me apetecer levantar, hoje foi um desses dias.
O despertador tocou...e pensas Já? è só mais um pouco e... volta a tocar.
Lá me levantei com muito custo, saí de casa arrastando o cadáver com uma nostalgia sem diálogo, olhos mal abertos e com a impressão no estômago de que o dia vai correr mal.
Meio perdido, sem orientação consulto as mensagens, o trivial fotos de mulheres nuas e sensuais, publicidade e pouco mais. Excluo tudo, vou espreitar "deslizarnosonho", como por magia a nostalgia vai-se, esboço um sorriso, sinto-me melhor. Uma boa terapia.
Agora vou saudar o Sol que teima em se esconder

19.10.03

Perde-te nas palavras
Perde-te nas palavras e deixa-te ir, até ao esgotamento total, dizias-me com as tuas palavras.
Falar de tudo sem ser mestre em nada é ingénuo e até presunçoso, e é aqui, que a confiança em mim mesma vacila e refugio-me, encerro-me voluntariamente no meu mundo.
Perde-te nas palavras. Não nos podemos perder muito mais quando já estamos perdidos. Sou uma errante na minha própria vida e os pensamentos são a minha melhor companhia. Sou uma mendiga que vagueia pelas palavras dos outros e qualquer tilintar no fundo de um chapéu quase vazio é um dádiva, um gesto de agradecimento. Para onde quer que vá, carrego toda a minha bagagem, cabe tudo em meia dúzia de sacos de asas, mas há dias em que até este pequeno fardo é demasiado pesado para um corpo que, aparentemente robusto, é a fraqueza que o domina. Outras vezes, quando a minha e única esburacada manta deixa trespassar a frieza da calçada que se aloja no corpo e gela-me os ossos da alma, as palavras ficam penduradas no canto dos lábios como uma beata morta.
Mas nem sempre é assim. Muitas outras vezes, vejo o sorriso das crianças que se aproximam e acenam sem medo, as flores vestidas de laços coloridos a caminhar pelas mãos das pessoas, os abraços do reencontro de amigos que o tempo e a distância não matou, os olhares cúmplices dos amantes quando pelos dedos entrelaçam os corpos, e então, algo se confessa em mim e as palavras preparam-se para ganhar terreno.
Nunca me propus escrever e muitas vezes, mas muitas mesmo, falta-me as palavras, o poiso onde o pensamento possa descansadamente pernoitar.
Eu sirvo as palavras e não são elas que me servem a mim. Quem sabe, um dia, encontrarei as minhas. Mas sei que, enquanto sonhar, estarei sempre acompanhada pelas palavras e converto-me em mil pessoas diferentes sem deixar de ser eu mesma.
Perde-te nas palavras e deixa-te ir, convido-te eu.

18.10.03

Passagem de Elefantes

Elefantes na água optimistas à solta
optimistas à solta elefantes na árvore

Elefantes na árvore optimistas na esquadra
Optimistas na esquadra elefantes no ar

Elefantes no ar optimistas em casa
Optimistas em casa elefantes na esposa

Elefantes na esposa optimistas no fumo
Optimistas no fumo elefantes na ode

Elefantes na ode optimistas na raiva
Optimistas na raiva elefantes no parque

Elefantes no parque optimistas na filha
Optimistas na filha elefantes zangados

Elefantes zangados optimistas na água
Optimistas na água elefantes na árvore

(Mário Cesariny)

17.10.03

SMS
Não haverá igualdade entre brancos e pretos, enquanto as brancas continuarem a aparecer na Playboy e as negras na National Geographic.


Desobediência
Nos dias de hoje, a neutralidade é impossível. Impõe-se que constantemente tomemos partido, mas para o caso de o tomarmos mal, haverá sempre alguém, com poder de decisão, que o tomará por nós, e pronto o assunto fica resolvido. E não importa, se estamos certos ou não. O que importa é que está resolvido.
Hoje aqui, amanhã ali, depois nas trincheiras, no duche radiactivo, ou depois de amanhã, no túmulo.
Portanto, mandem meus senhores.

Guerra e Paz
Tolstói nunca quis considerar-se nem que o considerassem um «literato». Via a sua obra literária apenas como mais um faceta da sua vida. Da sua biografia, com efeito, ressalta mais o empenhamento cívico, a preocupação social, a inquietude espiritual, a ânsia de reformar e renovar, principalmente no sistema agrícola e na pedagogia. A obra literária reflecte tudo isto e foi buscar à sua vida intensa e combativa, necessariamente, as suas características maiores.
«Se me dissessem que escreveria um romance em que demonstraria incontestavelmente a justeza de um ponto de vista a todos os problemas sociais [...] não dedicaria nem duas horas a um romance destes; mas se me dissessem que as crianças actuais iriam ler daqui a 20 anos o que eu escrevo, chorando, rindo e apaixonando-se pela vida, dedicaria a este romance toda a minha vida e todas as minhas forças.»
Diz Dmítri Likhatchov em Lev Tolstói e as Ttradições da Literatura Russa Antiga: «Tolstói, com a sua consciência que não se resignava à paragem e à rigidez, era por carácter um peregrino, o típico peregrino russo, na vida e nas buscas criadoras e éticas.».

Guerra e Paz, com encenação de Piotr Fomenko,
Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
dias 21, 22 e 23 de Outubro, às 20.00h
(3h40m, com dois intervalos)


16.10.03

A união de todos os E

Deslizando entrelaçado nas gotas, ele estava ali como um relâmpago que me vinha visitar, sem me tocar. No momento, correrei ao teu encontro e será uma corrida diferente ou tão somente um deslizar harmonioso, próprio das almas. Segurarei as tuas mãos e nada mais.
Mas encontro-te sentado, perdido na natureza do pensamento. Esperas sem esperar. Levantas o rosto e olhas como só tu sabes olhar e é assim que me abraças o corpo. Há encontros assim. Entre os corpos acessos e as palavras despidas, os segredos dançam aproximando-se da vertigem. Guia-me neste insuportável caminho que é o nosso. Segue-me.
Muito devagar caminho de olhos fechados pelo teu corpo enquanto chapinho na água que te atravessa o peito. Essa voz que conheço como os meus dedos, apodera-se de mim aos punhados.
Saberás o quanto te quero, enquanto as palavras ilegíveis sobem-me à boca. Palavras que nunca foram escritas, porque são palavras impossíveis de escrever. É sempre assim, quando navegas em mim. E, estas trémulas palavras, ainda quentes, escorrem na humidade dos cabelos colados à testa.
Tenho na boca o gosto da tua boca e na pele dos sentidos a suave e quente carícia.

À Flor da Pele
Gosto de tatuagens. Gosto deste universo em que a tela de linho é trocada pela pele. Gosto do registo a tinta permanente da beleza das figuras. Gosto da permanência.
Gosto da linguagem dos símbolos que se torna verbal, como se estivéssemos a olhar para um livro aberto que se desdobra no tempo.
Gosto da carga erótica que algumas tatuagens transportam, não só pelo desenho escolhido, mas essencialmente pelo quadrado de pele onde vivem.
Gosto quando as tatuagens são sinal de pertença de uma tribo e simbolizam cumplicidade do voar das penas das aves-do-paraíso.
Não gosto que a tatuagem esteja na moda. Não gosto da vulgarização. Não gosto da imitação. Não gosto quando uma marca não tem a sua própria história para contar.

15.10.03

Olhares
Há silêncios partilhados, silenciosamente simples, mais importantes que os cinco sentidos.
Há momentos envolventes, suaves almofadas temporais, que aconchegam as cumplicidades.
Há palpitações no ar, tentações que se afirmam livremente, contrariando as camisas de força interiores.
Há olhares de descoberta, piscares de luzes com mil reflexos, que vislumbram um reencarnar de ontem, de hoje e de amanhã.


Olhares de Lobo
Aqui há olhares.
E os olhares aqui são sempre os olhares do outro.
Ou sobre o outro.
E, hoje, este meu olhar é para ti.

14.10.03

Jogo de cintura
Ele há dias em que eu gostaria de mudar o comprimento das minhas pernas e a largura dos meus quadris. Ele há dias em que eu gostava de perceber de uma vez por todas o que significa ter jogo de cintura. Mas há sempre alguém que sai lesado, portanto não é nada de bom, pois não?

E,
as trémulas palavras ainda quentes escorrem na humidade dos cabelos colados à testa. Tenho na boca o gosto da tua boca e na pele dos sentidos, a suave e quente carícia.

Ainda o Medo
Os gregos divinizaram Deimos (o temor) e Fobos (o medo) e por sua vez, os romanos chamaram-lhe de Pallor e Pavor, mas em ambos os casos, procuravam não os desagradar ou desencadear as suas fúrias, principalmente em tempos de guerra.
Desde sempre as civilizações mantêm um diálogo com o medo, como escreveu Jakov Lind: O medo nasceu com o homem na mais obscura das trevas. Passando pela cultura do herói, do homem valoroso que nada temia e que vencia tudo e todos, até ao estudo por parte da filosofia clássica como uma das paixões negativas, o medo foi interiorizado como um sinal funesto e, por conseguinte, necessário de ser ocultado.
Como se não bastasse o medo inerente à condição humana, outros medos são acrescentados nos primeiros anos de vida, quem não se lembra do papão, do gigante, do homem do saco, das bruxas malvadas, do polícia e até do quarto escuro. E é o homem, este animal racional quem usa os amuletos e recorre a superstições para minimizar os efeitos, afastar ou impedir o medo do desconhecido, como por exemplo, a ferradura, o corno, a estrela de salomão, entre outros.
Nos dias de hoje os fantasmas que atormentam os homens são o desemprego, a falência da providência, a insegurança, a degradação do ambiente, o perigo nuclear, o cancro, a sida, as alterações dos comportamentos sociais, a perda do sentir religioso e por fim, mas não menos importante, a solidão. Em relação a toda esta insegurança, o historiador Jean Delumean, diz o seguinte: A insegurança é simbolo da morte e a segurança o símbolo da vida.
A única maneira de exorcizar o medo é atacá-lo onde ele nos tenta destruir e enfrentá-lo, reduzindo-o a um fantasma, mas a questão é se realmente desejamos tirar o nosso medo real, se afinal de contas, não desejamos a sedução do medo.
Do terror podemos fugir gritando, mas o medo tem uma estranha sedução. O medo e o desejo sexual estão ligados numa secreta conspiração, diz-nos Graham Greene.
Mas onde queria chegar,ouro sobre azul, era aos sintomas que descreves como manifestações físicas do amor e que, depois de tudo isto, as descrevo também como manifestações do medo: estômago retraido, pulso acelerado, um vazio na cabeça, mãos suadas, medo de falhar. E este sentir, ou melhor estas manifestações do sentir, podem ser medo, podem ser amor, pode ser o medo do amor ou o amor ao medo, não é?
Quem, entre nós, se sente capaz de afirmar o próprio medo?, perguntava Roland Barthes.

13.10.03

E,
saberás o quanto te quero. As palavras ilegíveis sobem-me à boca. Palavras que nunca foram escritas, porque são palavras impossíveis de escrever. É sempre assim, quando navegas em mim.

Desejar a impossibilidade
Sempre que enfrentamos transformações limitamo-nos a reclamar o cumprimento do possível. Mas não será este possível uma demonstração de falta de fervor? Não podemos esperar grandes coisas da possibilidade, a não ser a aceitação de um jogo, cujas regras estão pré-estabelecidas. E neste caso, não deveria ser a impossibilidade? Pois, é a impossibilidade que cria o desejar. O desejo do que é novo.
( a aceitação resignada do possível é bastante comum nas transformações políticas, não acham?)

Porque será?
Se as coisas são feitas para serem usadas e as pessoas para serem amadas, porque é que amamos as coisas e usamos as pessoas?

12.10.03

Gosto disto
Um fim de semana de coisas boas, de coisas que gosto, que descubro e que alimentam o meu sentir.

A poesia, a magia e a ternura de Slava que esteve no Centro Cultural de Belém. O melhor palhaço do mundo deixa-nos a mensagem de que nunca devemos esquecer e jamais reprimir o menino(a) que temos dentro de nós. Não vou esquecer, Slava, prometo.

A camaradagem, o espirito e a alegria do 3º Encontro Nacional Harley Davidson em Lisboa e que também assinalou os 100 anos da marca.
Levanta-se a possibilidade de criar na cidade de Lisboa o museu nacional da moto e eu levanto a possibilidade de satisfazer uma das minhas paixões, ter a minha Harley.

A melodia, o pormenor e o toque de génio de HoboSapiens de John Cale. Convido-vos a escutar, Zen, Things e Caravane. Está decidido, vou ver a música deste senhor. Aula Magna, dias 24 e 25 de Outubro.
(Muito se fala sobre Want One de Rufus Wainwright como um dos melhores trabalhos deste ano. Não concordo nada, mas admito a (eventual) falta de sensibilidade da minha parte.)

A escrita acutilante de Irvine Welsh numa celebração à ressaca da juventude com Porno. Recordam-se do Trainspotting? Eles estão de volta... com um plano genial. Vale a pena ler. Mais uma decisão, não perderei esta adaptação para cinema.

Um Bom Fim de Semana. Gosto disto

10.10.03

E
Muito devagar caminho de olhos fechados pelo teu corpo enquanto chapinho na água que te atravessa o peito. E essa voz que conheço como os meus dedos, apodera-se de mim aos punhados.

Falemos então de sexo!
Eis o convite do nosso querido avatares-de-desejo, chamando a atenção para o destaque do sexo na sociedade dos nossos dias.
Disse Andy Warhol: sexo é saudade de Sexo ( a maíscula é propositada e é de minha autoria). Tal como a arte e a própria vida, o Sexo tem que ser bem feito, cuidado e arranjado com gosto e sentido dos efeitos, e não pode nem deve ser qualquer mixórdia. Será então que falamos de sexo porque temos saudade de Sexo? De Sexo com qualidade?
Vivemos numa época dos pequenos contos e abandonamos cada vez mais a longa envolvência dos romances, prevalecendo a aventura da paixão execepcional à monótonia do quotidiano, a viagem da aventura à permanência, a riqueza da descoberta sobre a monotonia da fidelidade, a vitória dos amores sobre o amor. Será então a quantidade que destroi a qualidade em vez de a apurar? E o que procuramos cada vez mais na diversidade? O que tememos perder ou o que queremos alcançar? Preocupa-me que queiramos compensar a falta de algo, a falta de amor, desejamos mais porque amamos menos, porque cada vez mais os homens dos nossos dias amam-se mal.

Ninguém vai ver strip-tease por questões musicais, não é verdade?

Prazer
A verdade que se desvenda no prazer é a verdade do próprio prazer.
Não há nada mais terrível do que rebaixar a degustação de qualquer prazer a um concurso ou competição, a uma ciência ou a um jogo dos olhos vendados, em que o único prazer será a estranheza da situação.
A sorte reservou-nos o prazer e o prazer de amar. Cuidem bem dele, do vosso prazer.

9.10.03

Será
que o pintainho voltou?


Fumar II
Ainda sobre o prazer de fumar e porque os não fumadores pedem algumas explicações sobre os riscos do tabaco e as probabilidades de morte. Deixo-vos uma teoria:
Não há nada de natural em morrer, pelo que morrer por causas não naturais é como morrem as pessoas decentes. Todas as mortes são acidentais e raras, embora numas se note mais do que noutras. Se um dia nos dá para morrer que seja da forma mais forçada possível, senão ainda nos acontece que algum idiota que anda por aí aos montes vá desencantar algo de naturel no incrível escândalo do nosso desaparecimento.

Fumar I
Diz um amigo, enquanto puxa mais um cigarro:
- Preliminares, preliminares, mas o que é bom mesmo é o cigarrinho depois.

Obviamente, só concordo com a parte cigarrinho.

8.10.03

Indios, Cowboys & alguns (ex) bandidos
O que vos quero dizer, é que nesta moderna caça às bruxas não dão tréguas nem respeitam o adversário. Não, não vou falar do apagar de alguns políticos, mas sim do acender de alguns cigarros. Sim, fuma-se neste saloon.
Os índios, dignos e leais à sua pura palavra tentam aniquilar um dos prazeres do homem, um dos prazeres do cowboy. Guerreiam abertamente e querem o confronto a todo o custo.
Os (ex) bandidos, rancorosos, são os piores. Épicos ou pseudo-épicos são laureados pela sociedade, pela sua coragem, mas nem vale a pena entrar em mais pormenores.
Portanto, nada diferente de qualquer filme western, os índios toleram mas não suportam os cowboys e os cowboys desconfiarão sempre dos bandidos regenerados.
Como cowboy (não estavam à espera que escrevesse cowgirl, pois não?) deixo as seguintes mensagens:
Aos Indios e (ex) bandidos:
A seriedade da coragem e da morte dos cowboys enquadra-se numa humanidade sorridente e de espontaneidade.
Aos cowboys:
Boas cavalgadas, companheiros.

Tu
Serás sempre um rio de labaredas que correu debaixo da minha pele.

Moi Même
Caderno novo, ou seja, mais um volume do diário de pensamentos soltos. É nestes caderninhos de formas e cores diferentes que anoto, desde sempre, o que desliza por mim, dos pensamentos aos arrepios. Quando não têm mais páginas brancas são arrumados numa caixa de cartão. Já várias vezes pensei em jogar tudo para o lixo. Os mais antigos têm cerca de quinze anos. Não consigo.
Mas agora o que interessa é que o meu caderno novo em forma de bloque (blogue?) de argolas tem as minhas cores preferidas, azul e verde, e na capa diz o seguinte: Sugar and Spice, sometimes I’m sugar, sometimes I’m spice. A little sugar, a little spice and that’s all nice.
Desculpem , mas é a minha cara.

7.10.03

Portanto
Gostei muito de que aqui vi
Não gostei de ver o que aqui
E ele mudou-se agora para aqui
E portanto, já não está

E,
há encontros assim. Entre os corpos acesos e as palavras despidas, os segredos dançam aproximando-se da vertigem. Guia-me neste insuportável caminho que é o nosso. Segue-me.

Noite
É um corvo em liberdade.
É a aurora fatigada.
É o encontro secreto na enseada.
É um anjo vestido de pequenos diamantes.
É o grito dos duendes no telhado.
É a hora do luto e da crueldade.
É o instante das palavras de vida e de morte.
É o acordar das sombras.
É o derradeiro silêncio das trevas.
É o amor que se mata na cama.
É a dança dos corpos amantes.
É a mão doce e quente do homem.
É momento dos olhos fechados.
É um lugar solene para sempre temido.
É o poeta à procura de lágrimas.
É o corpo em frenesim de transe.
É quando o vento aumenta, porque o ar é o hálito da lua

Julgamento
Contra os falsos dogmas , contra as crenças, por mais delirantes que sejam, não se pode combater apenas com a negação, por mais sabia que esta seja. Dizer Não Acreditem é tão autoritário e tão absurdo como dizer Acreditem.

(Alexandre Herzen)

6.10.03

E,
encontro-te sentado, perdido na natureza do pensamento. Esperas sem esperar. Levantas o rosto e olhas como só tu saber olhar. É assim que me abraças o corpo.

Falsas virtudes
Com as máscaras deitavam-se as mulheres debaixo dos seus maridos.
Com as máscaras dirigem-se os juizes para as suas decisões em tribunal.
Com as máscaras afogam-se os artistas na sua desmedida e febril criação.
Com as máscaras seguem as promiscuidades aparentemente ocultas da realidade.
Com as máscaras tapa-se a palidez do sofrimento das crianças.
Com as máscaras devoram os amantes a erótica brancura das suas supostas vitimas.
Com as máscaras despacham os membros do conselho convenientes despachos.
Com as máscaras regulamentam os políticos os suspiros das multidões.
Com as máscaras, vociferam os missionários as suas redentoras palavras de ordem.
Com as máscaras proliferam os fingidos, refinando a sua arte de escamotear os esqueletos.
Com as máscaras aprendem os hipócritas a portarem-se muito rapidamente como deuses.
E as máscaras dos impacientes nunca serão suficientemente virtuosas para amotinar as máscaras dos hipócritas, ficando somente a possibilidade de alguma perturbação.

5.10.03

Ah! Como são insaciáveis os humores dos deuses!
(...)
Os deuses gregos vivem na eternidade.
(E os outros?) Os outros também, mas, agora o que interessa aqui, são os deuses gregos).
E nesse viver eterno, ocupam o tempo lançando sobre os indefesos mortais as suas iras, as suas birras. Jogam-nos uns contra os outros, em exercícios de força, moral, poder. É sempre assim. Sempre foi assim.
Os cidadãos gregos da Antiguidade encontravam no Teatro uma extensão da sua religião, das suas vidas, das suas crenças. A justificação dos seus actos e das consequências dos mesmos eram ali expostos e justificados pela constante intervenção divina.
Todo este povo acorria em massa aos anfiteatros, acreditando, ou fingindo acreditar que o destino podia ser representado, que a vida podia ser imitada por trás das máscaras dos actores que sobre o palco se movimentavam.
(...)
Que sabem os homens do lugar que os deuses em si ocupam?
Qual a distância que separa o divino do desgaste dos sentimentos humanos?
Ela sabia, sabia que a dignidade vive à beira da própria morte quanto, entre existências, se atravessa a tragédia.
O sentimento trágico cabe aos humanos infinitamente reafirmar. Com os deuses não. Com os deuses é diferente. Riem impudicos dessas penosas encenações, dessas tramas por eles combinadas e bastidores idílicos, nesses lugares em que as leis se vergam ao Destino, única entidade que ambiguamente não dominam. Lhes escapa.
Destilam, assim, sobre os mortais essa impotência intranquila e, estes, vivem subjugados pelos desaires dos pais que, outros deuses ou os mesmos, com a vida incompatibilizaram em jogos vingativos, quase irreais,
Amesquinhadas, as gerações repetem, sem imitar, a dolorosa e sofrida ignorância dos seus actos. No fim, pelas costas ausentes dos homens, os deuses trocam abraços e elogios. Gabam-se mutuamente a subtilíssima bravura das suas invenções, elogiam alternadamente a grandeza perversa das suas simulações, onde os mortais são peças soltas de um jogo que jamais poderão inventar.
E vão, assim, os deuses, felizes, ocupando o futuro da sua eternidade.
(...)
É assim que os deuses querem. Elevados a alturas insondáveis pelo conhecimento humano, desenham, impiedosos, os palcos onde os mortais, como crianças, se movimentam, accionando invisíveis alçapões que num repente, tão de imediato quanto o arrefecimento dos seus desejos, se abrem engolindo-os sem miseric'ordia. São assim os deuses. Espectadores invisíveis comandando os destinos dos homens. Sobre eles pesa o mistério de um ou outro. Destino cuja força desconhecem. Mesquinhos, capazes das mais odiosas veleidades, não perdoam essa impotência mesmo sabendo-se mortais. Disputando-se continuamente, fazer descer sobre os homens as suas querelas, ensinando-lhes, pelo preço da morte, os mandamentos impossiveis de impor à nossa perfeição.
Aos mortais resta apenas imprimir estas indizíveis provações e largar nas vontades a reafirmação infinita do sentimento do que é trágico.

(Dóris Graça Dias)

3.10.03

Já agora,
deixo-vos outra sugestão.
SAXOPHONE SUMMIT, com os saxofonistas Joe Lavano, David Liebman, Michael Brecker, no piano, Phil Markowitz, no contrabaixo, Cecil McBee e na bateria, Billy Hart.
Coliseu dos Recreios, 26 de Outubro, às 22.00h.


Alma Mahler-Werfel
Uma mulher sedutora que despertou paixõess violentas e viveu com alguns dos maiores génios do século XX, o compositor Gustav Mahler, 1º marido, o pintor expressionista Oskar Kokoschka, amante, o arquitecto fundador da Bauhaus Wlater Gropius, 2º marido e o poeta e último marido, Franz Werfel.
Alma é bela, inteligente, espiritual, tem tudo o que um homem pode exigir de uma mulher, e em abundância, escreveu Gustav Klimt, o homem que lhe roubou o primeiro beijo.
De autoria do dramaturgo israelita Joshua Sobol e com encenação do austríaco Paulus Manker, este espectáculo retrata a atmosfera de Viena no iní­cio do século XX, um ambiente de pura boémia, onde Alma ganha protagonismo pela intensidade das suas paixões.
46 cenas em 40 divisões, que nos obrigam a caminhar avidamente à  procura da história, mas sempre a perder a história. Temos que optar, tornamo-nos parte activa e responsáveis por aquilo que queremos ver. Um jantar a meio do espectáculo, mas completamente integrado no espectáculo, alimenta, e muito bem, o estômago e cria uma cumplicidade entre os espectadores, que não se conhecendo de parte alguma dividem mesas, apresentam-se e partilham opiniões e sensações.
Esta viagem teatral com a duração de 3h15m é essencialmente falada em inglês, mas também com cenas em português e francês, apresenta-se no Convento dos Inglesinhos, Bairro Alto, de 5ª a Domingo, até ao dia 26 deste mês. É obrigatório fazer marcação ( 21 322 50 92 ou 96 423 73 92). O preço, 50€ inclui as bebidas antes do espectáculo e o jantar.
Se possível, não percam.

Deixo-vos uma frase, entre muitas, escutada em uma sala, entre muitas:
O amor é como um guarda chuva, mais cedo ou mais tarde, precisamos de apanhar um taxi.

2.10.03

E,
no momento, correrei ao teu encontro. Será uma corrida diferente ou tão somente um deslizar harmonioso, próprio das almas. Segurarei as tuas mãos e nada mais.

Sem fundo
Em todos os assuntos e acima de tudo queremos sempre ir até ao fundo, o mais imediatamente possível , e por vezes, nem sequer nos ocorre interrogarmo-nos se haverá algum fundo onde chegar.

Dança
Independentemente do vigor da corte do animal macho, ele está sempre num estado de uma certa agitação. De facto, nos estados anteriores em que o medo ainda ultrapassa o ardor, parece tão inseguro que qualquer movimento da fêmea na sua direcção o põe a milhas.

(Mark Jerome Walters – The Dance of Life)

1.10.03

Ninguém
O meu nome é ninguém quando quero a vontade do outro.

Pim Pam Pum
Ah, meu querido amigo, e quem é que não tem medo do Lobo Mau?
Há quem afirme que a explicação para gostarmos de contos e filmes de terror é porque estes funcionam como cura desvairada dos sustos mais reais da vida. Não concordo. É falsa. Pelo menos para mim. Os calafrios percorrem-me o corpo, seja no guião que dança na tela, seja no guião a que chamamos de vida real.
Dizes que a intolerância anda sempre de mão dada com o medo e que tudo se resolveria se deixássemos o amor habitar o nosso coração. Mas não será o amor um dos maiores medos, trazendo com ele a dúvida se o êxtase amoroso sentido é tão arrebatador como nos parece, e porque, possivelmente, tudo se baseia mais na vontade de agradar ao outro, aos outros, por medo de perdermos a sua companhia.
E o medo da dor? Aquela sensação que por muito pouco tempo que dure, prolongar-se-á sempre por demasiado tempo. E ainda, se pensarmos na brevidade do tempo que a vida nos concede, espreita o medo da inexistência de algo que gostaríamos de fazer durar para sempre.
Mas poderíamos conversar, nesta conversa a várias vozes, no amor ao Outro, repara na maiúscula, pois refiro-me a Ele, então sim, penso ser possível perder o medo. E neste caso, a intolerância que abraça o medo, perderia as suas inseguranças ao entrelaçar-se no amor, deslizando suavemente na Fé, aquela de que me falas e que eu em mim procuro.
Por Amor de Deus, dirás tu. Por Amor a Deus, procuro eu.
Meu querido amigo, voltarei outro dia, ao medo e a medo, se a linguagem das trevas não me apanhar antes.

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