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23.12.03

FELIZ NATAL



Reparar
Sem o vício das palavras domadas na desatenção prestada.

Suspeitar
Sem o vício das palavras desconfiadas na história inventada.

Perguntar
Sem o vício das palavras caladas na certeza encontrada.

Confrontar
Sem o vício das palavras desatadas na raiva inesperada.

Transformar
Sem o vício das palavras usadas na memória passada.

Resguardar
Sem o vício das palavras lamentadas na alma marcada.


22.12.03

Hoje,
Apetecia-me voar.

(ora, também não é coisa para ficarem com esse ar esquisito)


#24
Porque é que sempre queremos agarrar um pouco mais, quando sabemos que temos que deixar partir?
Porque é que só tomamos consciência do que vamos perder, quando sabemos que esgotamos todas as possibilidades de o recuperar?

Costuras de Pele



Na sede das coisas
cai a lã da pele que trago vestida

Na vontade das mãos
o cetim das linhas de pele apetecida

No capricho da saliva
o veludo das palavras sem sentido

No fome das ancas
a seda das bainhas que se penetram

Sem a defesa da pele que me protege
O frio desmaia no xaile do teu abraço
E no alinhavo dos corpos lado a lado
Adormecemos envenenados pelo cansaço

21.12.03

Uma prenda de Azul Cobalto



Nas minhas mãos incompletas
As palavras são um mero vento morno
Na palma das tuas mãos abertas.

Suspenso nas palavras um lugar inventado
E com as mãos de gestos folhados de peito
Ofereces-me um jardim de sonho cultivado.

E nessas palavras de carícia cuidada
Os anjos inclinam-se à tua passagem
E eu, pequenina, digo, Muito Obrigada.


Obrigada A., por esta bonita prenda.
O meu blogue novo está lindo, as minhas cores, letra redondinha como eu gosto e os comentários como eles gostam. Uauuuuu, digo eu.



19.12.03

experimentei o teste
Mulholland Drive
"Mulholand Drive", primeiro estranham-te,
depois ninguem pode passar sem ti! Um misterio
que vale a pena descobrir.


Se fosses um filme, que filme serias?
brought to you by Quizilla

Pedido
minha fome
meu sabor
meu ciúme
minha ventura
meu desassossego
minha paz
minha angústia
meu costume

pedir-te que me peças que te queira.


Joris Van Daele

Porque quero
Porque tenho
Porque procuro
Porque entendo
Ou porque me disponho?

Sem submissão
Sem relevo
Sem vontade
Sem arestas
Sem ironias
Sem desequilíbrios
Sem impossíveis
Sem memórias.

Hoje
Rasgas-me a vontade húmida e latejando caminhas através da flor aberta.

#23
Em muitos casos a mentira pretende zelar a verdade.

18.12.03

A noite


Joris Van Daele

Insinua-se pela tarde e alastra-se levemente, adocicando a vontade daquilo que se aprende e apreendo, daquilo que não disfarço, daquilo que descubro e desvendo. A noite é fêmea, é a sucessão de intimidade, é a pernoita das nossas ancas que se adivinham, se afundam e se apertam aderentes.
Na nossa noite incrustada de luz tudo é doce. Tudo se cala. O ar é um carícia morna, nesse teu gesto de beijo cálido. Nada se dispersa. Em cada candeeiro calado colamos impacientes todo o corpo e as sombras caminham devagar debruçadas sobre o tempo. Penumbra de beijo e saudade, de corpo e de esquecimento, que se desdobra e se refaz, lisa, dócil e maleável.
Dentro da luz que suspende a ausência de sono, fechamos os braços entrelaçados pelo cansaço e pelo sonho. Minha noite, minha fome, meu sabor, minha impaciência.

Para ti, Miguel.
Obrigada pelas palavras e pelas imagens.

17.12.03

#22
Tudo decorre, tudo vai passando, mas nem tudo se assimila.

Déjá vu


Serguei Alimov

Há locais e histórias sobre as quais lemos ou fantasiamos muito, imagens repetidas nos nossos filmes e nos nossos sonhos que as consideramos já visitadas sem sairmos de casa, mas que, ao «pisá-las» pela primeira vez é inevitável aquela sensação déjà vu. Como qualquer viajante, entre o destemido e o tímido, chegamos dispostos a deixar-nos sufocar pela eventual potencialidade dos acontecimentos, esperamos a sufocante delicia de uma qualquer ordem insólita, mas deparamo-nos com o profundo desmerecimento do óbvio e descobrimos afinal no que tudo consiste precisamente.
Temos a mania que somos meio criadores dos nossos já habituais prestígios, mas cada vez mais me convenço que não somos nós que avançamos na sua direcção, são eles que nos vêm ver.

Domável



Devoras a minha brancura indefesa
Envenenas-me com o excessivo banquete
Atiras-te aos meus pés
Aos pés de quem não deverias atirar-te
Nada sei fazer com o meu pranto
Excepto reduzir-me a cinzas nas tuas mãos.

Dócil não sou,
Mas tu, amansas-me com demasiada facilidade.

16.12.03

Hoje
O teu corpo espalha-se e enlouquece-me.

#21
Há quem leve tão a sério o seu não ser como outros o seu ser.


Aidan

O crime
Todo o homem tem, ou muito facilmente os arranja, bons motivos para matar um seu semelhante. Aliás, uns matam outros não. Para além dos motivos e das circunstâncias favoráveis que não faltam a ninguém, mas também a ninguém o obrigam, é a vontade que se decide e dá o grande passo. Todos, aparentemente, estamos à mesma distância do crime.

A culpa
Cada vez mais temos necessidade de encontrar um culpado e cada vez menos nos preocupamos com o culpado. Nem sempre é o culpado quem à primeira vista parece sê-lo, isto é, para efeitos de comodidade e conveniência quem mais conviria que fosse. Faz lembrar um pouco os romances policiais em que o detective aponta um falso culpado de acordo com as evidências insuficientes ou de acordo com uma certa concepção preconceituosa da sociedade, e que depois terá de salvar reconstituindo o verdadeiro rasto da vontade do mal. Mas na vida, a verdadeira reconstituição fica-se demasiadas vezes pelos romances.

15.12.03

Hoje,
Esse teu toque que me queima devagar
É um poema de palavras nuas que nasce.

#20
Os mistérios não se resolvem, são colocados e vividos. Não será este o caso do amor, da vida e da morte?

Gritos Pardos
No sábado passado, no Espaço Marginália , tive o prazer de conhecer o Paulo Querido e o Jorge Candeias . A cavaqueira sobre blogues e os dominadores da blogosfera muito facilmente se estendeu à convivência de palavras que os homens e as mulheres falam entre si. Independentemente da minha frase “a piada da vida está em vocês levarem porrada (das mulheres, claro)”, gostaria de esclarecer que, acima de tudo, os homens e as mulheres influenciam-se, influenciam a vida uns dos outros e, essencialmente, fecundem-se, ainda que aos olhos de cada um, o outro pareça, por vezes, alguém com uma morada inacessível. Todavia, só gostaríamos de ser deuses com asas, cujo voo não seria mais do que a plenitude da união, pelo que, meu caro Jorge, os homens não desistem, pois jamais poderiam viver sem esta poesia.
Obviamente, que existirão sempre uma série de pormenores que nunca perceberão, como é o caso concreto do sexto sentido feminino, aquele poderoso instinto que nos garante a certeza absoluta, independentemente de estarmos certas ou não (sei que vão gostar desta).

12.12.03

Importante



Abriram as bilheteiras no Centro Cultural de Belém para o concerto do Nick Cave, dia 24 de Fevereiro.

Hoje
nos silêncios que se entregam
olho-te docemente
e invento o nada



#19
A ciência já não é a última coisa que se descobriu, mas aquilo que terá que ser descoberto depois de amanhã. Uma espécie de tradição para a frente que deduz tudo o que poderemos esperar dentro da lógica da repetição.



Porque é que temos que acreditar na liberdade de uns ou na revolução justiceira de outros? Porque é que entre dois males temos que escolher um?
É uma cilada miserável obrigarem-nos a escolher. Ser preferível um em vez do adversário não torna o primeiro perfeito.

11.12.03

Vícios
círculo vicioso
círculo dos viciados
presos nas ruínas circulares
a sonharem ser mágicos.

sonhados por quem
saberá quem.



Elasticidade
aproxima-se sigilosamente o abraço do amor
uma hora
outra hora
o tempo que não se move para a frente.

repetir em murmúrio o saborear do desejo.
uma hora.
outra hora.
o tempo que não se move para trás.

estirar e encurtar a tentação desta tarde insatisfeita.
uma hora
outra hora
que estranha é a vida, não é verdade?


Andrey Smirnov


10.12.03

As Nossas Crianças


Donald Beachler

Somos bombardeados diariamente por notícias carregadas de acontecimentos terríveis e de obscenidades intoleráveis que nos levam à mais pura indignação e desolação. Tomamos consciência dos estragos e estremecemos porque esta maldita sombra do horror será algo que nos acompanhará para sempre e muitas destas marcas serão irreparáveis. Os limites são transgredidos e entram directamente no intolerável, como é o caso imundo e brutal da pedofilia. Pouco a pouco, perde-se o que de digno e humano deveríamos ter e toda a justificação racional é desprezível e absurda. Quem dera que eu não tivesse escutado esta história, porque sei que não a vou esquecer.
E as crianças que morrem de fome, de doença ou traiçoeiramente são abatidas ao abrigo de guerras que desconhecem. Albert Camus argumentava que o sofrimento das crianças era a prova da não existência de um Deus bom. Uma afirmação diabólica, uma óptima desculpa para aliviar o peso das consciências e diminuir o fardo das responsabilidades.
Não são as crianças não nascidas que sofrem, mas sim as que nascem, aquelas que não são queridas, o resultado da ignorância ou do descuido, entregues a pais que sofrem e os obrigam a pagar por isso. Os inimigos do aborto falam do direito à vida como se fosse possível definir e garantir a existência antes dela mesmo existir. Se assim é, falemos então do direito a ser recebido com amor e ternura, a contar com todos os direitos de protecção e de cuidados para que a vida seja realmente uma vida. É preciso não esquecer que para muitas crianças cujos pais não querem ou não podem criá-los, o direito à vida é simplesmente o direito à tristeza, aos maus tratos, à agonia e até à tortura. Não me é fácil aceitar os discursos e posições daqueles que só se preocupam com a virtualidade dos não nascidos, esses protectores do «direito à vida» que não se preocupam e não se esforçam para garantir as melhores condições àqueles que vão nascer.
Não sou mãe e não sei até que ponto este estado condiciona o meu sentir, mas o aborto pode evitar muitas vezes a proliferação da infelicidade e do abandono, no entanto, sinto por esta medida preventiva uma repugnância instintiva.
Informação, apoio, planeamento, protecção, bom senso e, essencialmente, muito amor e ternura para todas as crianças do mundo. É a nossa oportunidade, talvez a única, para socorrer o irreparável.

9.12.03

Hoje
Rapta-me e embrulha-me.
Dispõe-me docilmente
atada na nossa estante
ao lado dos livros e dos discos.
Hoje, sou uma princesa sem reino.


Andrey Smirnov

8.12.03

As Renas ou a Missão Impossível



Hoje foi o dia escolhido para despachar todas as prendas de natal, sem sucesso, pelo que nada há a acrescentar. Bem, seria falsa modéstia, como talvez já receassem, pois é sempre possível acrescentar mais qualquer coisa.
Se me permitirem, e francamente, não acredito que possam fazer alguma coisa para o impedir, esta época natalícia parece-me muito oportuna para declarar o meu amor pelas renas. Numa palavra, minhas amigas, quero felicitá-las porque também este ano, como nos anteriores, não é proferido o vosso nome como criaturas essenciais em toda esta celebração. O que vos quero dar são as Boas Festas, não são essas Boas Festas, embora também as desejo felizes, mas as outras, as Festas que não lhes fizeram.
Aproveito a oportunidade para me dirigir ao Senhor, o Pai Natal. Pois bem, o Senhor é visto em todo o lado, como um duende ausente que todos os corpos presentes não conseguem apagar. O senhor com tantos anos feitos continua com sorte. A sua longevidade não engana ninguém, mas continua-se a falar de si aos miúdos que o olham com uma mistura de admiração e receio. O senhor se mantém, se renova, e por conseguinte, não haverá espaço para as minhas amigas renas. É inclassificável, inqualificável: as renas «são» mas não «estão» e eu que tanto me lembrei delas enquanto carregava uma parafernália de sacos com laços multicolores.
Já percebi, há que contar com a sua presença, é inevitável como um desafio, mas continua a ser inassimilável para o que esta quadra tem de oficial a ausência das minhas amigas renas.
Assim, às minhas amigas renas o desejo de Festas Boas, ao senhor, o Pai Natal, felicidades, portanto.

7.12.03

Hoje
Tenho a presença de um maravilhoso passado na pasmaceira de um presente que gostaria de estar num fantástico futuro.

Michel Majerus

O reino da possibilidade e o sonho do fantástico
Espantados, curiosos, entusiasmados, mas também submetidos à angustia do desconhecido e ao medo de uma vingança cósmica que nos castigue, assim estamos, conservando alguma paciência neste fugaz presente.
Instintivamente associamos a presença do futuro ao nosso presente, talvez porque o futuro é o tempo mais associado ao fantástico, à imaginação, ao reino da pura possibilidade e é este vazio que nos convida à especuladora fantasia. O futuro é o incitamento, é a esperança, mas é também, a ameaça.
Por sua vez, o passado que deveria ser a época do acabado e do irremediável, mas nem é preciso dizé-lo, não é bem assim. Olhamos demasiadas vezes para trás, arrependemo-nos mil vezes dos erros cometidos, censuramos as hesitações e o baixar dos braços perante a aventura, e carregamos o peso do passado até ao presente, o excessivo fardo da saudade. Temos um link permanente para o passado. E nisto tudo, o presente não é mais do que a briga com o que é necessário. Atrever-me ia a dizer que o nosso presente está saturado, está empanturrado com o passado.
Porque é que tentamos recuperar o passado em detrimento do futuro?
Queremos converter os erros do passado nas possibilidades do presente e garantir o futuro, quando afinal, é o futuro que aparece nos momentos de pessimismo, como um campo repleto de possibilidades.
Assim estamos, enleados nos nós de ontem, a desempecilhar as possibilidades de hoje, intentando o entrançar dos fios de amanhã. E no entanto, todas as histórias pertencem à mesma pessoa.

#19
É mais fácil reinventar o passado que modificar o futuro.

6.12.03

o vento

Christian Cravo

a água

Daniella Rosário

5.12.03

#18
Os pormenores descritivos são essenciais se não perderem a sua natureza casual ou fortuita, mas caramba, os raciocínios demasiado desenvolvidos são quase sempre um estorvo.

Voejar
Inclino-me
Contorno-te
Oscilo
Devagar

Hoje
Eu sou a servidora das palavras e tu és o guardião do meu verbo.
Isto não é uma comodidade de expressão.


Diálogo
Ele: Então, a tua opinião?
Ela: Interessante.
Ele: Interessante. Ora, se faz favor.
Ela: (de ímpeto) Ora, com licença. Interessante é uma qualidade tão legítima e destacadamente literária como qualquer outra.
Ele: Hã????
Ela: Há quem consiga ser interessante com uma facilidade milagrosa e há quem não a alcance praticamente nunca. Há obras estimáveis que nunca alcançam o estatuto de interessante, não é?
Ele: Sim, é um facto.
Ela: Portanto, interessante é um adjectivo aliciante, não concordas?
Ele: (baralhado e pouco convencido) É possível...
Ela: (ufffff). Mas mudemos de assunto...

4.12.03

Inquietude de palavras inquietas

Palavras de relevo
aspiram e transpiram.

Palavras inacabadas
inventam o nada.

Palavras remexidas
desgastam o perfil.

Palavras cruzadas
ditas e retornadas.

Palavras reveladas
transparentes de sentido.

Palavras sentadas
Que testemunham só.

Palavras serenas
Talvez apareçam.

Palavras em actos
portas por abrir.

Palavras esquecidas,
madrugadas da memória.

Palavras enfeitiçadas
o sussurro dos corpos.

Palavras nocturnas
os braços dos amantes.

Palavras certas
a aflição dos outros.

Palavras perdidas
nunca se encontrarão.

Aproxima-te!
Quero dizer-te tudo.

3.12.03

#17
Os amores que ensinam a sobreviver, para depois vencer, não se deixam morrer.

Curiosidades
Há os que pedem conselhos, e há os outros, que só se contentam se a pregação conter o exemplo... o exemplo daquilo que eles gostariam de ver exemplificado.

Histórias
Nas narrativas, nos contos ou nas biografias, o pior que pode acontecer a um personagem é o facto de ser humano, demasiado humano. Os personagens chamados humanos, tanto na ficção como na vida real, não se mantêm por virtude própria, mas sim pela cumplicidade com as deficiências daqueles que os admiram.

2.12.03

Olhos nos Olhos

Nesse olhar suave
Na sedução em movimento
Caminho devagar passo a passo

Nesse olhar de silêncio
No desejo que se insinua
Mergulho o meu olhar

Nesse olhar de espanto
Na sede dos meus gestos
Aperto o nó do teu abraço

Nesse olhar profundo
Na loucura encontrada
Desperto do sono onde me deito

Nesse olhar de desejo
No grito que se avizinha
Perco-me e encontro-me

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