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29.11.03

A palha e o recheio
È preciso aprender a separar o trigo do joio, dizias-me. Tens razão. A realidade é uma mixórdia misteriosa e, por vezes, até comovente, em que uns mergulham completamente despidos, embora não sem meios defesa, enquanto outros analisam-na miudamente com gestos certeiros e cruéis, repintando-a depois com cores que nunca poderão vir a ser totalmente as da vida. Tens razão, é fundamental separar a palha do recheio.

28.11.03

Protesto
Nesta minha janela, penduro um lençol branco para o Fernando Santos.


















A ver a banda passar
Muito pouco podemos fazer quando a cor espalhafatosa da capa da irregularidade é enganosamente adornada com o brilho dourado das lantejoulas da omissão e da mentira. Inertes, na ordinária bancada da aparente normalidade, assistimos ao espectáculo

Compromisso
Elias Canetti diz que o compromisso “é algo assim como se tivéssemos de manter uma relação de empregados com certas coisas importantes”. Com efeito, o comprometido apresenta-se acima de tudo como se estivesse à procura de trabalho. Emprego para ele a para as suas ideias, mera literatura de cordel, mas se analisarmos as coisas neste sentido estritamente laboral, é claro que esta literatura de cordel não serve para nada nem para ninguém. Os comprometidos só entendem a responsabilidade de como ganhar mais dinheiro e poder e o que reclamam quase sempre é o direito de se entregarem a quem dá mais. Nos dias de hoje, a palavra compromisso tem o cheiro do obsoleto e o gosto amargo da desmobilização.

27.11.03

Sonho
Procura no meu corpo o teu desejo louco
Acentua as minhas palavras com as tuas mãos inquietas
Acende-me por dentro
É este o meu sonho hoje

#16
As palavras mudas, como anjos decepados, são incapazes de voar.

E a guerra continua
Ainda voltando ao tema da guerra e sobre o qual termino sempre em discussão, repito e afirmo que a única coisa positiva que se pode tirar de uma guerra é o ódio à guerra e aquilo que ela representa. Sempre que nos deparamos com uma calamidade destas só pensamos na necessidade de conservar todos os valores da humanidade e da independência e de como evitar por todos os meios a repetição da tragédia.
Não concordo com a afirmação de que é legitimo recorrer a conflitos armados, quando certas ideias estão em perigo e não acredito que alguém no seu perfeito juízo consiga defender com um mínimo de coerência que, para manter certas ideias e valores temos que recorrer à força, mesmo que isso signifique fazer desaparecer metade da vida deste planeta. Às vezes, nestes momentos de fúria, penso é que os homens, ou seja todos nós, deveríamos ser eliminados do mapa por todas estas loucuras.
Quem afirma que é legitimo a força, com toda a certeza, nunca teve uma ideia na vida, pelo menos uma que valha a pena. Tenho dito e mais não falo sobre isto

26.11.03

A idade tranquila?
Ando ligeiramente preocupada com a minha idade. Não com a idade que tenho, mas porque sinto cá dentro uma terna saudade do passado, o que me leva a pensar que os anos avelhentados se abeiram demasiado rápido ao meu presente.
De então, da idade que já tive para cá, mudei radicalmente de ideias, um pouco de amores e quase nada de gostos, mas agora, nesta idade que já tenho, as coisas vão mudando gradualmente, aporto soluções e sugiro-me caminhos com uma serenidade que não possuía outrora e sem as grandes ilusões do antigamente.
Porque é que a mensagem, tal como a imagem remetem quase sempre para a ausência? Olhamos as imagens dos que não estão connosco, vemos nas fotografias aqueles que se foram e aqueles que já não somos, trazemos para o presente os instantes que já vivemos, ficamos exilados pelo desejo do passado.
Será o sinal da ausência uma ameaça da aproximação da idade tranquila?

#15
Por vezes o tacto é cego.

Nós
Somos feitos de espírito,
Esta carne que deseja e dói.
Este espírito que é corpo,
Este corpo que se reconhece frágil.
Nós,
Não conhecemos a temporalidade,
Nem a irreversibilidade dos dias.
Nós,
Somos os escravos dos sentidos

Geografia Humana
«E não havendo conhecimento desse passado, não se pode amar aquilo que não se conhece.»
(Orlando Ribeiro)

25.11.03

#14
Será que a única forma de sobreviver é precisamente vencer?

Ecos
Corpos que escutam o som da existência de outros corpos.
Corpos que chegam na maneira de pombos correios
Corpos que atraídos uns pelos outros constróem relacionamentos no pensamento.
Corpos que se reflectem em outros corpos.
Corpos que querem ser outros corpos, tentam sem nunca o ser.
Corpos que se contentam em recolher pedaços de outros corpos.
Corpos que se despedaçam quando se afastam a mal.
Ecos.
As palavras que se repetem.
O sinal da ausência na sua ordem acidental.

Bem Vindos
Efectivamente, a língua é um órgão que alguns degenerados utilizam para falar e eu, a primorosa princesa, já sente a dureza destas cinco ervilhas debaixo do meu colchão.
Sejam bem vindos, mas tento nessa língua perversa, peçonhenta e deletéria.

24.11.03

O mundo dos porquês
Começo por um esclarecimento porque na primeira coisa em que tropeço na minha procura de respostas é na ausência das próprias respostas e, por vezes, em alguma censura pela travessura das minhas perguntas. Naturalmente, as perguntas apresentam-se, inquietam-me e eu tento obter, sem visível sucesso, respostas práticas e essencialmente espontâneas. Mas adiante, vamos à questão que interessa. O que é que procuramos? O que é que todos os homens e todas as mulheres procuram?
Perguntam os senhores, a quem é que pode interessar uma coisa destas? Pois, nem sequer aos meus amigos, tenho a certeza, embora às vezes fingem que sim só para me fazer a vontade, enquanto os conhecidos abanam a cabeça com a vénia do devido desconto. Se me interrogam porque é que o faço, nunca mais saio daqui, mas irão lembrar-se deste discurso quando levantar a questão, para a qual ainda não tenho resposta, sobre os desejos que nos movem e as fantasias que se ocultam. De facto, nunca se fala do realmente desejado ou recalcado por alguém, que é mais ou menos como quem diz, de nós mesmos. E qual é o lugar do desejo?, poderia muito bem ser outra pergunta, talvez sem resposta.
Mas não é este o tema, portanto vamos ao que interessa. O que é que procuramos nesta celeridade fulminante que é a nossa existência? Com mais ou menos justificações e pondo de parte todas as questões materiais, segundo parece, procuramos a felicidade. Simplesmente queremos ser felizes.
Claro que pessoalmente também quero algo tão pretensioso e fantástico como «ser feliz», mas honestamente não conheço ninguém que tenha atingido claramente esse objectivo e afirme, sem pensar, sou feliz. Neste meio tempo, reparo que, por vezes, olhando para trás e na presença de uma realidade menos abonada há quem suspire por uma felicidade perdida, felicidade que só poderá ser comprovada depois da passagem por confirmadas circunstâncias de júbilo e o contentamento anterior permanecer como o magnifico e poderoso momento. Mas, não é isto que queremos, pois não? Queremos tudo, queremos a felicidade completa, permanente e para sempre.
Deambulo pelo tema e, para cúmulo, observo que não tenho informações fidedignas sobre o estado de felicidade, excepto vagas imagens reluzentes, o som do chilrear dos passarinhos e do estrondo dos morteiros no silêncio da noite estrelada, claro que sim, falo dos minutos e das referências poéticas, mas também do prazer erótico. Levantam-se, ainda, dois problemas, a dificuldade em acreditar nos despautérios paradisíacos que os representantes divinos prometem desde sempre e não poder declarar sem renitência a devoção infindável do amor.
Recapitulando, desejo ser feliz, não conheço ninguém que afirme convicto que é feliz, conheço muitos como eu que pretendem sê-lo e cada vez mais não faço ideia no que se traduz a felicidade.
Vou já acabar, só tenho que deixar algumas perguntas que já estão a importunar-me: Qual é o caminho para a felicidade?, não será com certeza o caminho frustrante da racionalização;
Não queremos todos nós coisas diferentes?, será com certeza o fundamentalmente querido, isto partindo do princípio que sabemos o que queremos.
E já agora, uma vez que o queremos ser, o que é que nós fazemos para sermos verdadeiramente felizes?
Só tenho a acrescentar que, em boa verdade, sobre o essencial da questão também não me posso considerar agora muito mais ilustrada, mas a palavra felicidade parece-me demasiado vaga, e de impulso, até um bocadinho insossa.

23.11.03

Os Anjos na Assembleia
Um dos temas que integrava os debates «angelógicos» e em cujas discussões os teólogos passavam horas, era a quantidade de anjos que podiam dançar na ponta de um alfinete.
Creio que não chegaram a nenhuma conclusão. Nós, também não.

O silêncio dos Anjos
Falta-me paciência para as correntes de amizade, amor, bem estar e satisfação de desejos que chegam diariamente à minha caixa de correio electrónico. Hoje, por exemplo, sou contemplada com a possibilidade de obter apoio incondicional de três anjos, cada um vocacionado para uma especialidade muito concreta e, assim, mudar a minha vida para melhor. Todavia, esta banalização dos anjos leva-me a pensar que estes perderam o seu lado mais sagrado.
Os anjos aparecem nos sítios mais vulgares do dia a dia, das etiquetas às camisolas, da cosmética ao chocolate (neste caso, concordo com a aproximação ao divino), enquanto as sapatilhas ganham asas nos spots publicitários e os chapéus alados tentam competir com os deuses nos estádios de futebol. Surgem por todo o lado, no cinema, na banda desenhada, no écran do computador e, nos nossos dias, voam sem pejo no espaço global da Internet.
Estes anjos de hoje não são mensageiros de boas novas, não anunciam salvadores nem salvações, as mensagens que trazem não mudam o rumo das vidas. Os anjos de hoje são impotentes.
Onde estão os anjos de outrora? Onde é que estão os anjos que os artistas aprisionaram na tela e imobilizaram na pedra? Onde é que estão os anjos que nasceram com a Escritura e prevalecem nos romances de sonho? Onde está o anjo individual a que todos temos direito? Onde está o meu anjo da guarda?
Quero de volta os anjos do antigamente, os anjos com asas, o único elo de ligação entre os céus e as terras. Quero os meus anjos, como concediam os Persas a cada homem, nada mais nada menos que cinco anjos da guarda: o primeiro, à direita para anotar as boas acções, o segundo, à esquerda para anotar as más (vendo bem, este é dispensável), o terceiro, em frente como guia, o quarto, atrás para me proteger e o quinto, em cima para a elevação espiritual.


Nota:
Anjo significa mensageiro e por conseguinte o envio de mensagens para, presumo, satisfazer uma necessidade de comunicação, mais preciosa para nós do que para os próprios anjos. Poderão os Anjos dos nossos dias utilizar a Internet para comunicar com os mundanos? Eliminando a televisão pelos valores elevados dos spots publicitários em horário nobre, a solução mais barata, eficaz e potencialmente mais abrangente é seguramente a Internet.
Sem certezas, fico com a certeza que, a partir de hoje, reencaminharei todos os anjos que receber, inclusive para os remetentes, como sinal de grande apreço. Apreço pelos anjos, claro.


22.11.03

George Santayana
"O ar livre também é uma forma de arquitectura."

(algo que nunca deveríamos esquecer)

Sobrenatural
Aparentemente a guerra é uma das coisas mais úteis e benéficas inventada pelos homens para entreterem a sua monótona existência. Dizem os entendidos na matéria que a lista dos benefícios devidos à guerra é quase interminável, tendo inclusive Joseph de Maistre insistido em chamá-la de Divina. Portanto, graças às guerras existem Estados, graças aos Estados temos guerras, quer contra os Estados inimigos, quer em épocas mais ou menos com a nossa neste momento, de défice, contra os próprios cidadãos.
Sou uma leiga nesta matéria e só posso estar enganada, mas aventuro-me a dizer que a guerra de Divina tem muito pouco e só protege alguns.

21.11.03

#13
Não me contento em comprender a tragédia do meu espírito. A partir de hoje, quero governá-lo. Será uma tarefa escrupulosamente simples e silenciosamente heróica, mas provavelmente de resultados duvidosos.

DOGVILLE
Uma caçada lenta até à captura total das nossas emoções e são essas emoções que mordem a nossa própria pele, numa ilustração demasiado real do que pode ser o ser humano. As personagens batem em portas ausentes, não batem na única porta existente, não batem em uma porta ausente, num jogo maquiavélico de falsos moralistas, de autoridade, de afectos chantagistas, de violação e, no final, a simples aceitação sem peso de consciência da vingança.
Na tela, uma excelente encenação teatral com a mágica e visual amplificação dos pormenores e com uma intensidade que nos perturba de uma forma peculiar, como se alguém nos espiasse naquilo que é demasiado intimo para tornar público até ao triste espectáculo que poderá ser a criatura existente em cada um de nós.
E desde ontem à noite, esta fotografia excessivamente nítida do espírito humano não me saí da cabeça. Afinal, aquilo pode muito bem ser verdade.
Um filme a não perder.

20.11.03

A desatenção
Não existem desatentos na sua inteireza, porque até na falta de atenção a perfeição é escassa. Pessoalmente não gosto da palavra, pois tenho sempre a sensação de que esta falta de atenção está associada a uma eventual e racional falta de interesse.
Gosto sim da palavra distracção, porque o distraído só se distraí porque fica absorto naquilo que lhe desperta atenção. Não sofre de alienação como o desatento, somente medita profundamente sobre determinados assuntos e em eficaz processo de evaporação lança todos os outros para uma nuvem, no pleno sentido de coisa, fofa, mole e vaporosa.
Sempre gostei dos distraídos, são por natureza mais humanos, espirituosos e divertidos do que os supostamente atentos. O que é o seu caso, meu caro senhor.

P.S. De distraída para distraído, uma distracção sem importância: o mail do deslizar no sonho está mencionado no respectivo cabeçalho. Nas tintas, mas não tanto.

#12
Lutar não é somente denunciar males.

Guerra
Arregalei os olhos e afiei as unhas quando uma criatura disse que a alma dos homens se molda com a experiência da guerra, pois aprendem a coragem, o companheirismo, a renúncia da própria vontade, o sacrifício e a fidelidade.
Ora se faz favor, não me lixem, a guerra desenvolve a brutalidade, o ódio em relação ao outro, a baixeza moral e até a submissão cega.
Se a questão é moldar a alma dos homens há outras alternativas para desenvolver as mesmas virtudes, nos hospitais, na protecção civil, nos lares da terceira idade, nas associações de ajuda humanitária, etc.

19.11.03

Nervos
Não posso ouvir frases do tipo, antes a morte que isto, antes a morte que aquilo ou antes a morte que aquele outro. Será que não percebem que não há posição mais derrotista que esta. A morte é a acomodação total, é a derrota definitiva. Sem a vida, o valor mais importante, de nada valem a liberdade, a justiça, a independência ou a fraternidade.

#11
Ver desvanecer o que se ama sem ter a certeza absoluta de que o amava, é perder as forças antes de exercê-las à vontade e com vontade.


(Des)Esperanças
Para o amante de um jogo, um desporto ou uma festa, nada mais natural do que querer vê-lo de perto. É claro que isto é muito mais válido para os que gostam de vibrar com um desporto do que para aqueles que preferem contemplar a festa.
Como sequaz, o prazer seria maior se tivesse presenciado o jogo ao vivo, mas mesmo filmado foi um excelente espectáculo. Quando assim é, penso naqueles que sofrem em directo e não têm a oportunidade, como eu, de apreciar e rever em câmara lenta o ênfase dos pormenores. Inveja, é o que isto é.
Gostava de ter apoiado e aplaudido, ao vivo, a rapaziada no jogo de ontem, porque acreditaram até ao último segundo, porque ganharam aos franceses e porque conquistaram, sem limites, a minha confiança.
No entanto, hoje, quando assisto às imagens do balneário completamente destruído pela rapaziada, a festa perdeu metade do seu esplendor. Lamentável e indigno.

18.11.03

Afinal,
aquilo que cada um pode saber da sua própria vida não é muito mais significativo que aquilo que qualquer um pode nela ver. Além disso, a nossa opinião está viciada pela permanente presença mental daquilo que realmente pretendíamos alcançar.
Afinal, vendo bem as coisas, só somos donos de metade da nossa própria história, da história que conta. E se analisarmos bem as coisas, talvez não seja essa a metade mais interessante.


#10
A meditação é frágil e por isso muito preciosa.

Desacerto
Neste encadeamento de ruas e vielas do desencontro
Nesta luta de corpo contra corpo
Neste silêncio em cima de silêncio
Neste meu desassossego retido
Nesta última barreira que nos separa
Peço-te a certeza da vertigem que tens nos olhos quando me desejas.

17.11.03

Morrer pela boca
O esquema das perguntas para obter determinadas respostas deixa-me deveras furiosa, o tradicional lançar de isco para apanhar peixe, preferencialmente, o graúdo. As perguntas são sempre, ou quase sempre, falsas. Perguntas a fingir. Nunca é feita a pergunta para a qual não se saiba já a resposta, que seria a única forma de perguntar alguma coisa séria. Parece que estes representantes da sabedoria têm em primeiro lugar um repertório de respostas e depois inventam para elas as perguntas adequadas convertendo-se para a resignada cobaia numa tendência pela qual a indignação da pergunta se desarticula automaticamente numa resposta.
Nestes esquemas, eu morro sempre, ou quase sempre, pela boca e só dou por ela depois de morder o isco. Tal como o peixe, suponho

#9
Nesta coisa de escrever, cria interesses quem pode e não quem quer.

14.11.03

Portas
As portas da percepção, umas fecham-se outras abrem-se.
Hoje deixo esta encostada...outra se irá abrir.

" Há sempre um pouco de Loucura no Amor,
Mas há sempre um pouco de razão na Loucura"
F Nietzsche.
(Coyote)

Caminhantes
Tão diferentes como só o podem ser os espíritos profundamente afins, mas orgulhosamente espíritos.
A Paula continuará a deslizar no sonho e o Coyote aventura aqui

#8
A filosofia namora a ciência mas deita-se com a poesia.

(paula)

Desatina-me

Pressente-me
Desperta-me
Tacteia-me
Acende-me
Entrelaça-me
Bebe-me
Inclina-me
Equilibra-me
Invade-me
Percorre-me
Enlouquece-me
Inunda-me

De saliva. De sede. De suor.
No atalho. No caminho. No destino.
Sem desistir. Sem parar. Sem sobrevir.

(paula)

FelicidadesQuerida Amélia
Será o blogue e o homem duas matérias primas incompatíveis na vida de uma mulher?

(paula)


13.11.03

#7
A escrita, tal como o sonho e a masturbação, não exclui à partida companhia, mas pode viver muito bem sem ela.

(paula)

Insónia

A chuva rasga o silêncio do sossego
Sem paz nem ventura, a vigília inesperada.

Serenamente o desvelo desliza nos meus olhos
Perco-me na noite e sobrevivo à madrugada.

Sem relevo, os pensamentos desdobrados, refazem-se
Palavras moles escorrem pelos dedos, invento o nada.

Nos vincos da manhã. Morro. Flexível
A luz que chega, uma queixa angustiada.

(paula)

12.11.03

Livre?
Queria ser um pássaro para poder voar livremente.
Voar livremente, e poder levar um tiro dalgum caçador.
(Coyote)

Começar
O Leão rosna, mas não ataca,
Vamos começar de novo,
Os vultos que se aproximam não são ameaçadores,
Arranha céus locais de passagem fugaz, são estranhos.
Partilha os teus sentidos, distribui-me as tuas emoções,
Deixa-te escorregar no teu ser e mostra-me quem és.
Lembra-te,
Quando te dirigir o meu olhar, estou a pensar em ti.
Sempre que os lobos uivam estão felizes.
(Coyote)


Até...
Encontrei-te,
Andavas perdida nos sonhos,
Caminhavas sob o fogo,
Com a eterna esperança,
Pedi-te para não ires, mas foste,
Agora que voltaste,
Já não sou aquele que deixaste.
(Coyote)

Albardar o burro...
Chego à conclusão que não devemos ficar enovelados em explicações e dar a cara para justificar as palavras do passado e, muito menos, continuar a dá-la racionalmente no presente.

(paula)

Histórias da memória
Não há sistemas para o amor, não há métodos para alcançar a paixão, apenas histórias de apaixonados, narrações exemplares da força em acção.
A narração é a memória do que é... e... é necessária, porque nos faz lembrar a possibilidade do heroísmo e essa lembrança é a própria possibilidade.
A narração é gratuita e ingénua, mas nobremente nascida para a liberdade e os traços do herói variam, assim a subtileza e a eficácia das suas armas, a lealdade dos seus companheiros, o pormenor da sua paisagem, a índole dos seus inimigos, os seus feitos e a sua vitória permanecem.

(paula)

10.11.03

A simplicidade das coisas simples
E no entanto seria tão simples. Mas a aparente simplicidade das coisas simples não é mais do que um amarfanhado de fios de palavras enredadas em pequenos nós de silêncio, um espesso novelo que amarra os gestos do querer.
Seria a simplicidade de um gesto simples como a palavra formada de saliva que olearia a pequena ranhura em forma de fechadura de sete trancas, tantas quantos os anos da distância no tempo.
Seria a simplicidade de um gesto simples como um sussurro colado à pele que moveria o emperrado portão da fortaleza de pedra mole edificada no peito.
Seria a simplicidade de um gesto simples como o tactear lento das tuas mãos que acenderia o fogo no salão principal da alma, e em lenta passada, os tambores ecoariam por todas as artérias do arrepio.
Seria tão simples. E no entanto, os braços caídos ao longo do corpo são a imagem da não vontade, a desistência de um tronco que, deliberadamente, deixa-se atolar na margem, pois não quer mais seguir viagem com as águas vivas do rio. Como é triste a inércia, como é dolorosa a apática não vontade, mil vezes pior que a falta de coragem em avançar. Não iniciar uma viagem é um mal menor se comparado com o ficar a meio caminho. O abandono. O desistir de prosseguir.
Seria tão simples, bastaria a simplicidade de um gesto simples, e isso, é algo que nunca fomos, autores de gestos simples.

(paula)

Interesses sociais
A sociedade dá mais importância ao escândalo e desgraça alheia, que ás questões culturais,políticas e económicas do país.(Vejamos as notícias)
(Coyote)

Democracia
...têm todo o direito e dever de perder tempo a dar a vossa opinião.
Decisão final será a minha.
-Eis a nova democracia-
(Coyote)

Problemas?
A melhor maneira de resolver um problema é criar dois novos problemas.
Acabamos por esquecer o primeiro.
(Coyote)

9.11.03

Desfasamento temporal
A minha relação com Cronos não é das melhores, não sou uma boa cronometradora do tempo que passa, do tempo que passa através de mim e da forma que tenho de passar através do tempo, e inclusive, de passar o tempo, em forma de passatempo.
É complicada esta relação que tenho com o tempo. Se por um lado, o tempo é aquilo que perco, o que se vai sem conseguir evitar e sem me aperceber, por outro lado, o tempo que se vai tão depressa e sem notar, passa demasiado devagar. Ou seja, se por um lado não tenho pressa em estagnar o fluir das horas, por outro lado, é demasiado lento, nunca mais passa.
Chego à conclusão que o principal problema não é a brevidade do tempo que me é concedido, mas sim, quando sinto a inexistência de algo que gostaria de fazer durar interminavelmente.
Neste balanço, nesta passagem dos ponteiros de mais um ano de vida, gostaria de poder mandar parar o tempo, de bloqueá-lo, de o preencher de outra maneira, de introduzir nas horas qualquer coisa que as faça passar sem sentir, embora seja disso precisamente que mais me queixo, de que o tempo desaparece sem que eu repare.
Enfim, o que quero dizer é que estou atenta ao meu tempo, ao tempo que foge, ao meu tempo que por vezes é a minha tempestade.

(paula)

P.S. E os atrasos, Meu Deus, este desfasamento natural de cerca de quinze minutos que me atrasa sempre.

8.11.03

Dois poemas
Dois poemas dos 100 poemas de Maria Teresa Horta que me ofereceste.

Segredo
Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que o feche
o anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

(in Minha Senhora de Mim, 1971)


Alimentos
Os trópicos da tua
boca
entre ameixa e desatino

O visco doce
aberto
a descobrir o destino

Ao sentar-me no teu
colo
a comer devagarinho

(in Só de Amor, 1999)

(paula)


6.11.03

Notas soltas
Notas soltas misturadas e espalhadas,
A minha mesa de trabalho.
Papéis acumulam-se e espalham-se em montinhos, uns maiores outros menores,
Tudo o que preciso está aqui, mas não encontro,
Uma desorganização organizada, reflito aqui o meu mundo.
A caneta onde está? Tinha-a agora mesmo, mas o lápis tem o bico partido.
Logo agora que tinha de escrever umas notas soltas não posso.
(Coyote)

A imaginação
A imaginação deveria ser como um bom cavalo numa pista do hipódromo, mas uma pista sem vedações a demarcarem direcções estabelecidas e, sobretudo, sem metas definitivas a atingir.
(paula)


5.11.03

Há dias
Em que, qualquer que seja o ponto de partida e/ou destino, a melhor rota passa seguramente pelo terminal da "porrada".
(paula)

Rumo ao Sol
O rodopiar da cabeça sincronizado com o corpo na passagem do desfile,
Os olhos cintilantes numa provocação de desejo.
Cores e movimentos sensuais que não deixam indiferente.
Os sorrisos,o fumo e a bebida transbordam na sala, cruzam-se olhares cumplices e aproximam-se os corpos.
Na direcção do covil, o desejo é a ordem do momento.
A magia continua.
Amanhece, a cabeça pesada e tonta, estranha visão da noite. Todos os sons são ensurdecedores e os olhos fecham-se.
Um adeus sem contacto, um amor por desejo, sem um nome.
Novamente só, errando pelos trilhos da cidade rumo ao Sol.
(Coyote)

Sol
Acorda...Está na hora,
A festa vai começar,
Dá-me a mão, vamos caminhar até ao Sol.
(Coyote)

4.11.03

Comemorações
A necessidade de organização e orientação das sociedades são medidas pelo calendário.
Os dias compôem esse calendário.
A importância dos dias para establecer planos de orientação como as estações do ano, definir signos, decifrar cartas astrológicas, marcar as datas de relevo que vão acontecendo no universo, tudo se baseia nos dias que compôem o calendário.
Certo é que precisamos dos dias e das tabelas para orientação e organização.
Todos os dias são pretexto para se comemorar algo. Alguns mais importantes que outros.
O dia de ontem, o de amanhã, do próximo mês, próximo ano pela mais variada razão e sem ela, comemora-se.
De todos por excelência o mais festejado é o Natal. Para alguns o dia mais importante do calendário, sobrepondo-se a outros pessoais.
Também há quem não goste de festejar os aniversários, casamentos, nascimentos, polí­tico ou religioso e outros por várias razões.
Há quem festeje um dia após outro, comemora-se por estar vivo.
A todos que comemoram os dias todos e aos que festejam só os especiais desejos de dias bons e façam o favor de ser felizes.
(Coyote)

O sussurro da saudade
Junto à praia sempre deserta, espero-te à janela, nesta pequena janela, envolta nas cortinas manchadas pelo tempo da delonga. Em cada renovada esperança, oscilo o corpo nos bicos dos pés e mergulho no abismo do vazio, dependurada nas aspas de uma teima incansável. Fito a carta que treme quando soletrada com as mãos, palavras que me foram remetidas, as letras mais obscuras do alfabeto, palavras que nunca devolvi, porque somente acreditarei quando as encarar escritas nos teus olhos.
Nesta espera, o cheiro das ervas daninhas que rodopiam ao vento salpicam-me a pele, inundam-me com água morna os olhos de silêncio e perco a noção da subtileza, enquanto espumadas a branco, as ondas da praia esperam por mim, acalmam-me o peito sangrento com a sua canção e murmuram-me outros pensamentos, os pensamentos para sempre temidos ao largo das enseadas em mim, sozinha com a vida.
Luto contra a corrente para te dizer tudo, para te dizer que não tens nome mas existes, que és a soma de todos os sonhos, de todas as minhas ilusões, uma caligrafia bordada na pele de uma história loucamente amada e quando voltares, quando acontecer, neste lugar, no tempo, em algum tempo, será para sempre solene.
Não demores, queima-me os lábios o sussurro da saudade.
(paula)

Blues
Não te preocupes, não te preocupes, sê feliz.
Vai ouvir os discos do velho Blues.
(Coyote)

Fim de tarde
As longas e ingremes calçadas percorridas tão em busca dum passado distante.
O vento corta-nos a respiração, gela-nos o corpo,
para onde nos leva esta calçada?
O assobiar das esquinas que já viram de tudo sussuram-nos ao ouvido uma melodia que não ouviamos há muito.
Não me recordo da letra mas trauteamos a música.
A música essa boa companheira dos bons e maus momentos.
Marcamos o passo afinado, nesse momento somos um só. Nossos corpos unidos, o mesmo pensamento, mesmos passos, os mesmos movimentos, a respiração cadenciada, olhamos na mesma direcção.
Reparamos que não estamos sós, outros tiveram a mesma ideia o mesmo desejo.
No cimo da calçada avistamos os outros.
Por detrás das janelas estamos sós.
Fumamos um cigarro, fazemos castelos no ar.
Um labirinto de ideias que escapam e sorrisos soltos que nos fazem sonhar.
Quem és tu, como te chamam?
(Coyote)

3.11.03

Desvendar
Os meus passos avançam
sem contar
Por entre as poucas mãos
sem andar
Múrmuro algumas certezas
sem avançar
Desperto a cautela do olhar
sem pestanejar
Falo em cada grão de palavra
sem clamar
Passo leve num esticar de dedos
sem roçar
Agarro o entusiasmo do corpo
sem te tocar

(paula)

2.11.03

#6
Nem tudo o que flutua pode passar por barco.

Mistérios
O palpitar do mistério, esse beco de tentadora escuridão que convida à perdição e ao extravio, onde se entrecruzam autênticas paixões e desinibições humanas e, sem dúvida, a possibilidade de revigorização de um lânguido romance. O mistério é o jogo, o jogo puro, recheado de exotismos e caprichos, uma espécie de palavras cruzadas com história, cujas personagens são deliciosamente aventureiras, cuja verosimilhança com a realidade é a sua própria realidade.
A emoção perante um perigo estipulado, o gosto pela supresa e pelo enigma, o regozijo pela contemplação do arrojo físico em acção ou pela subtileza intelectual, numa palavra, os encantos perduráveis do mistério, a atracção de todos os tempos. Gosto dos mistérios na vida das estórias e nas histórias da vida.
(paula)

1.11.03

Miló
...e na busca da felicidade partiste.
(Coyote)

Jorge H
Que lugar estranho este, onde me encontro,
Vagueio pelos olhares e ninguém me vê,
Corre sangue nas ruas,
Os rostos marcados pelas lágrimas sêcas,
Onde estão as crianças felizes?
Os poetas ficaram mudos,
As máscaras amontoam-se nos caixotes,
O grito da revolta, da coragem,
O labirinto da vida,
Foi forte,
Deixas-te os teus discos e desenhos por acabar,
Não poderei ser o pai de tua cria,
Será uma mentira ou um sonho mau?
Porque foste?
(Coyote)

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